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Novos programas oferecem cursos e treinamentos para aumentar o número de contratações

 

Quando o GuiaBolso montou um comitê de diversidade em 2017, notou a baixa presença de mulheres na área de tecnologia - e a ausência de transgêneros. O comitê e o RH foram estudar os motivos dessa aparente exclusão e organizaram eventos e até um museu interno para apresentar os relatos e as dificuldades de quem possui pouca representatividade dentro das empresas.

 

Segundo Kátima Minzoni, head de pessoas, as ações visavam tirar estigmas, vieses inconscientes e preconceitos por parte dos próprios funcionários e descobrir iniciativas eficazes para aumentar a diversidade. Neste mês de dezembro, a fintech começou a seleção, aberta para mulheres e profissionais transgêneros, para um curso de formação de desenvolvedores.

 

“Esse programa, em parceria com a CodeNation, já ocorreu em outras empresas. Mas é a primeira vez que é realizado com foco no público trans”, diz Kátima. Os 18 selecionados irão receber uma bolsa para aprender, por dez semanas, a linguagem de programação Java, usada na fintech. A expectativa é contratar, no mínimo, 50% da turma.

 

Uma estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) aponta que apenas 6% dos transgêneros estão no mercado formal de trabalho. “Esse número é um levantamento interno nosso, mas faltam pesquisas e estudos mais científicos. É difícil medir porque muitos trans ainda são contratados pelo nome do RG e outros optam por se identificar devido a algum tipo de receio”, afirma Keila Simpson, presidente da Antra.

 

Entre as multinacionais, a Cargill finalizou em outubro o segundo ciclo de contratação de transgêneros no escritório de São Paulo e de Uberlândia. As oportunidades disponíveis estavam na área de RH e nos departamentos fiscal, comércio exterior e de logística. “Queremos quebrar um ciclo vicioso em que pessoas trans terminam marginalizadas, sem a chance de desenvolvimento pessoal e profissional”, diz Simone Beier, diretora de RH da Cargill. Entre os contratados, como jovem aprendiz, está Christopher René Varjão Santana.

 

O jovem de 23 anos se inscreveu no processo por estar infeliz no sua antiga empresa. “Era um lugar sem muitos ganhos profissionais. Além disso, algumas coisas ligadas à minha transição de gênero me incomodavam: crachá com nome de registro, constrangimento na revista dos funcionários, murmurinhos de várias pessoas e transfobia”, disse.

 

A situação o motivou a buscar um curso de gestão financeira e, durante a seleção da Cargill, disse que ficou surpreso ao poder conversar abertamente sobre o fato de ser trans - algo que não ocorreu em outros processos nos quais foi reprovado. “O fato de ter diversidade entre os candidatos me deixou mais relaxado”.

 

Essa também foi a impressão de Azre Azevedo, 19, ao chegar para uma dinâmica de trabalho do grupo Cataratas, concessionária que administra parques de ecoturismo, como Foz do Iguaçu. Era sua primeira entrevista e ela temia não ser bem recebida do jeito que é - e não com o nome e gênero que o seu RG indicam. “Eu demorei para me candidatar porque tinha receio de bater no peito e afirmar que sou trans ou fingir ser um homem cisgênero para entrar no mercado”, diz.

 

No auditório da dinâmica, se sentiu à vontade, ao lado de apenas candidatos trans, para compartilhar a sua história - que inclui uma saída precoce da casa dos pais e moradia provisória em um hostel e na Rocinha. Ao conseguir uma bolsa na faculdade e o emprego, pôde bancar o aluguel e a aquisição de roupas femininas. Hoje, trabalha no RH ajudando na ambientação de novos funcionários. Segundo o diretor da área Robson Lourenço, a contratação dos trans foi acompanhada de ações internas para lutar contra vieses inconscientes e discriminação, além de treinamento direto com os gestores.

 

“É claro, porém, que nem tudo são flores”, diz, citando o caso de um funcionário que se dizia desconfortável com o uso do banheiro do escritório pelos trans. “Nos reunimos com ele para explicar questões de identidade de gênero e de orientação sexual”, diz Robson.Essa conversa com funcionários também ocorreu na sede do escritório da subsidiária brasileira da AIG, que removeu os símbolos de gênero das portas dos banheiros em novembro. Segundo Vinicius Mercado Silva, líder do grupo de diversidade da empresa, essa ação, aliada a treinamentos contra vieses, prepara a AIG para receber funcionários trans no escritório em 2020.

 

A polêmica em torno do banheiro pode causar desconforto não só para quem chega, mas também para quem já está dentro. Com bacharelado em física, Marcela Bosa, 34, já era gerente de um banco quando anunciou dentro de sua agência, localizada em Pesqueira (PE), que iria iniciar seu processo de transição de gênero.“No dia que virei a chave, algumas pessoas me pediram para usar o banheiro masculino. Não fazia sentido. Eu estava começando a grande mudança da minha vida e teria que lembrar pelo que estava passando toda vez que fosse usar o banheiro que os outros achavam certo”.

 

Como gestora, ela reuniu sua equipe para comunicar sua transição e explicar que o processo seria gradual - começando pelo nome, passando por alterações físicas, vestimentas até a cirurgia. “Eu gerencio pessoas. Não podia simplesmente chegar e falar que eles deveriam aceitar”.

 

Naquele momento, o ambiente interno era favorável, diz, citando políticas e ações da alta liderança para promover a diversidade. O que não tirou ela do centro das atenções da cidade de cerca de 60 mil habitantes. “Virei atração por três meses. Mas não quis fugir. Preferi ficar e mostrar que isso não afetava minha capacidade como gerente”. Ela diz que conseguiu, ganhou a benção do padre da cidade, participou de campanhas internas do banco e hoje lidera a equipe de uma agência no Brás, em São Paulo.

 

Os desafios das empresas para inclusão de trans envolvem abrir mais oportunidades e criar um ambiente de acolhimento e suporte para quem vive a transição. Mas o que perpassa essas frentes, segundo Maitê Schneider - trans, empresária e cofundadora da plataforma TransEmpregos - é se desfazer de certos estigmas.

 

“Durante muito tempo, acreditou-se que os trans estavam somente na rua ou nos salões e que não possuíam as competências exigidas pelas empresas. Mas competência não tem a ver com credo, cor ou gênero”, diz, citando que dos 15 mil currículos cadastrados na TransEmpregos, 40% têm graduação, mestrado ou doutorado. A plataforma foi criada em 2013 por Maitê, pela cartunista Laerte e pela advogada Márcia de Castro para ajudar na inserção de trans no mundo corporativo e hoje possui 350 empresas parceiras.

 

Fonte: Valor Econômico

 

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