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Intervenção artística é feita há um mês na Brasilândia, distrito com maior número de mortos pelo coronavírus na capital paulista

O artista plástico Rodrigo Rodrigues, 41 anos, mais conhecido como Digãocomprimido, tudo escrito junto mesmo, decidiu colocar máscaras em seus grafites, espalhados pelos muros da Brasilândia (zona norte da capital paulista), para conscientizar moradores da região sobre a necessidade de se prevenir contra a Covid-19.

O distrito da Brasilândia lidera as mortes, por causa do novo coronavírus, com 185 casos registrados, pela prefeitura, até o último dia 20.

Digão afirmou ao Agora, na manhã desta quarta-feira (27), que queria usar sua arte como ferramenta de combate à pandemia, mas sem gastar muita grana. A solução foi criar máscaras, que serão descartadas "quando tudo isso acabar", feitas com sacolas plásticas brancas e fita crepe -- que custaram, ao todo, R$ 11. "As máscaras são provisórias. Se eu fosse pintar elas nos grafites, teria um gasto maior agora e também depois para refazer o trabalho, que existia antes das máscaras", explicou.

Digão acrescentou ter trabalhos nos muros da Brasilândia, onde nasceu e cresceu, e em todas as regiões da capital paulista, além do litoral. As intervenções com máscaras, até o momento, foram feitas em cerca de dez personagens, pintadas no bairro da zona norte.

Digão, grafiteiro da Brasilândia tampa com máscaras de plástico os trabalhos feitos na região,  com o intuito de conscientizar a vizinhança sobre a importância de se prevenir contra a Covid-19

O grafiteiro colocou máscaras, por volta do meio-dia desta quarta, nos desenhos do sambista Bezerra da Silva, de Tim Maia e de Bob Marley, todos feitos no muro da casa de Luiz Salvarani Lima, 38 anos, amigo de infância de Digão.

Vizinho de Lima, o cortador de confecção João Pinto, 71, considera "criativa e importante" a iniciativa de Digão em colocar máscaras em seus grafites. "As pessoas aqui da Brasilândia não têm consciência [sobre os riscos da Covid-19], eles acham que este vírus é brincadeira."

Homenagem à amiga que trabalha em UTI

Além de artistas e celebridades dos esportes, como a atacante Marta da seleção brasileira de futebol, Digão também homenageou sua amiga, a fisioterapeuta Daniela Lepski de Campos, 37 anos, com o rosto dela paramentado com o EPI (Equipamento de Proteção Individual) em um muro da rua Jerônimo Souto Maior, na Brasilândia.

"Ela trabalha na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital filantrópico. Com o grafite dela, homenageio a todos os profissionais da saúde neste momento de pandemia", explicou Digão. Ele disse ainda que, após o fim da quarentena, irá redesenhar o rosto da amiga, mas sem máscara e com um sorriso.

Daniela afirmou ao Agora, por meio de mensagem, amar as pinturas de Digão, tanto que a casa dela e de parentes já foram grafitadas pelo artista. "Ele me mandou mensagem, dizendo que queria fazer uma homenagem aos profissionais da saúde, e gostaria que fosse através da minha imagem, pelo 'respeito que ele tem pelo meu trabalho', como assim ele disse. Eu fiquei imensamente agradecida e claro que aceitei a ideia", escreveu a fisioterapeuta, em um breve intervalo da UTI Pediátrica em que trabalha, em uma unidade de saúde filantrópica da zona leste.

Morou dentro de carro por três anos

Digão incorporou à sua assinatura "ocomprimido", após morar por cerca de três anos dentro de um carro. Ele afirmou que familiares não o respeitavam por ter escolhido a arte como meio de vida. Por causa disso, decidiu sair de casa, transformando um Escort Perua em moradia. "As coisas ficavam tão comprimidas, apertadas, que decidi incorporar isso ao meu nome [artístico]."

O grafiteiro também personificou seus dias de aperto criando a personagem O Comprimido, um palhaço com cabelos de nuvens negras, que representam os momentos difíceis vividos pelo artista, e com olhos de ave, para simbolizar sua visão de liberdade.

O Escort circulava pela cidade conforme as demandas de trabalho de Digão, mas estacionava diariamente perto de uma pista de skate, na zona norte, onde ele se sentia à vontade para dormir e passar dias de folga. "Cresci na cultura do skate e me sentia em casa [ao lado da pista]."

O grafiteiro finalmente se mudou do carro quando conseguiu uma vaga em uma ocupação, onde residiu por dois anos e meio, na Brasilândia. Depois disso, no mesmo bairro, se mudou para a casa onde ainda mora.

Fonte: Agora SP

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