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Para especialistas, diminuição da circulação de pessoas é essencial para o controle da transmissão do novo coronavírus

Medidas de restrição de circulação de pessoas, combinadas a outras ações sanitárias, são apontadas por especialistas como as mais eficazes no controle da transmissão do novo coronavírus.

Na última segunda-feira (5), o Brasil ultrapassou a marca de 13 milhões de infectados por covid-19. Desde o início da pandemia, em março de 2020, o país soma 336.947 mortos, segundo dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Especialistas seguem reforçando a necessidade de um sério lockdown nacional. Não só a medida tem sido constantemente negada pelo governo Bolsonaro, como o presidente da República segue criticando as políticas de isolamento encampadas por estados e municípios.

Na última quinta-feira (1º), mais de 30 pesquisadores, cientistas e economistas enviaram uma carta a Bolsonaro, prefeitos e governadores pedindo que seja adotado um lockdown de três semanas no país.

Segundo o grupo, a iniciativa, nomeada de “Abril pela Vida”, teria o potencial de poupar 22 mil vidas, evitando que o Brasil chegue em breve a um patamar de 5 mil óbitos por dia, porque reduziria a média móvel de mortes.

Exemplos de cidades de Norte a Sul do Brasil demonstram que a implementação de lockdown tem se mostrado eficaz no controle da disseminação do vírus. Veja abaixo alguns desses exemplos.

Araraquara (SP)

Araraquara foi o primeiro município de São Paulo a determinar lockdown contra a pandemia, em 21 de fevereiro. Foram dez dias com todo o comércio fechado e o transporte público restrito.

No dia 26 de março, depois de 44 dias registrando óbitos por covid-19, o município zerou as mortes em decorrência da doença.

Na última quarta-feira (31), o prefeito Edinho Silva (PT) publicou outro decreto, ainda mais severo, que inclui os postos de gasolina na lista de atividades que não podem funcionar durante o feriado da Páscoa. Em princípio, o isolamento rígido na cidade vai ser mantido até 4 de abril.

Responsável pelas medidas que reduziram os efeitos do coronavírus na região, Edinho Silva chegou a receber ameaças de morte após a publicação do segundo decreto.

O número de óbitos registrados na cidade na semana epidemiológica de 1º e 7 de março era de 41. Esse número caiu para 10 na última semana, entre 29 de março de 4 de abril, o que representa uma redução de 75%.

Os casos confirmados caíram 70%: de 1.327 no pico da pandemia, entre 15 e 21 de fevereiro, para 398 na última semana. A média móvel diária de casos era de 189 em 21 de fevereiro, dia de início do lockdown, e caíram para 51 na última segunda-feira (5). Os dados foram divulgados pela Prefeitura de Araraquara.

Chapecó (SC)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou esta semana uma visita a Chapecó (SC), cidade que, segundo ele, seria um exemplo do sucesso do suposto “tratamento precoce” contra a covid-19, baseado em medicamentos sem eficácia comprovada.

A contradição é que, no município catarinense, os casos ativos da doença caíram 61% após 14 dias de lockdown, entre 22 de fevereiro e 8 de março, medida restritiva criticada por Bolsonaro.

Jair Bolsonaro e o prefeito de Chapecó, o ex-deputado federal João Rodrigues (PSD), são amigos de longa data e foram colegas na Câmara, como membros da chamada “bancada da bala”.

A versão divulgada por Rodrigues atribui a redução dos casos de covid-19 à montagem de um ambulatório especializado no chamado “tratamento precoce”, em janeiro. Os remédios mais utilizados são azitromicina e ivermectina, nenhum deles reconhecido como eficaz no tratamento ou na prevenção do coronavírus.

O prefeito também liberou, no início da gestão, em janeiro de 2021, eventos com aglomeração na cidade, ampliando o horário de funcionamento de bares.

Os casos de covid explodiram em fevereiro, obrigando Rodrigues a decretar um lockdown de 14 dias e ampliar o número de leitos de UTI. A queda de 61% foi registrada justamente ao final desse período.

As UTIs em Chapecó continuam com lotação acima de 95%. A cidade tem 537 mortos pela pandemia, dos quais 410 foram registrados neste ano, durante a gestão do atual prefeito.

Análise das 100 maiores cidades brasileiros

Das 100 maiores cidades brasileiras, as três que possuem menores taxas de óbitos por covid-19 viveram semanas de lockdown. Petrolina (PE), Taubaté (SP) e Ribeirão das Neves (MG), respectivamente, ocupam as três melhores posições do ranking.

Os números, obtidos juntos às secretarias municipais, foram organizados pela empresa de consultoria Macroplan e divulgados pela revista Exame no dia 26 de março.

Petrolina (PE)

Em Petrolina, a reabertura gradual das lojas, shopping centers, igrejas, administração pública, parques e orla fluvial, a partir de 1º de junho de 2020, fez o número de casos disparar 152%, segundo o Boletim 09 do Comitê Científico do Consórcio Nordeste.

Diante desse aumento, a Prefeitura determinou lockdown de 14 dias em 13 de julho e conseguiu estabilizar a situação novamente. Desde aquele período de flexibilização, as atividades econômicas não voltaram a operar 100% na cidade – conforme as recomendações do governo estadual.

A cada novo anúncio de restrições, a administração municipal de Petrolina enfrenta boicotes das associações empresariais, que discordam do fechamento.

Em março, quando a taxa de ocupação dos leitos de UTI chegou a 100% duas vezes no município, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e o Sindicato do Comércio Varejista (Sindilojas) protestaram contra a prefeitura no estacionamento das lojas Havan.

Atualmente, a cidade registra 65,3 mortes por coronavírus a cada 100 mil habitantes.

Taubaté (SP)

A 140 km de São Paulo (SP), Taubaté tem 73,7 óbitos por covid a cada 100 mil habitantes e começou cedo a editar medidas de isolamento, em coordenação com o governo estadual.

As medidas restritivas mais duras foram restabelecidas em janeiro de 2021. O decreto entrou em vigência no dia 19 daquele mês, com vetos à circulação de pessoas em espaços e vias públicas no período noturno.

Em dois meses, a Operação Preservação da Vida, coordenada pela secretaria de segurança pública municipal, realizou 704 abordagens em Taubaté para garantir a efetividade do lockdown. Ao todo, foram interrompidas 147 festas clandestinas que promoviam aglomerações.

A Prefeitura de Taubaté segue à risca as determinações estaduais, com medidas ainda mais rígidas. O governo João Doria (PSDB) prorrogou até 11 de abril a Fase Emergencial de combate à pandemia. As políticas mais restritivas de circulação e atividades na cidade vigoram desde 15 de março.

Ribeirão das Neves (MG)

Com 86 mortes a cada 100 mil habitantes, a cidade-dormitório Ribeirão das Neves se beneficiou das restrições impostas pelo prefeito de Belo Horizonte (MG), Alexandre Kalil (PSD). Afinal, a distância é de apenas 44 km, e o fluxo de trabalhadores caiu drasticamente durante o lockdown.

Com um aumento gradativo dos casos até o início de 2021, Ribeirão das Neves aplicou novas medidas restritivas em janeiro. A Prefeitura seguiu à risca o Plano Minas Consciente, do governo estadual, fechando o comércio no dia 11 e mantendo apenas serviços essenciais.

O efeito foi imediato. No dia 19, o município foi incluído na fase amarela, considerada menos grave – comprovando o sucesso da política de isolamento.

A flexibilização logo fez disparar o número de infectados, a ponto de a cidade aderir à “onda lilás” sugerida pela Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Granbel), em 9 de março. Naquele dia, todos os leitos de UTI para covid estavam ocupados. Com isso, Ribeirão das Neves passou a ter o toque de recolher no período das 20h às 5h.

 

Fonte: Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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