Na Mídia

Em entrevista, a filósofa fala de seu livro ‘Pequeno Manual Antirracista’ e dos desafios para o movimento negro no Brasil de Bolsonaro

A filósofa americana Ângela Davis já anunciava nos idos da década de 60: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”. A afirmação da ativista é detalhada por Djamila Ribeiro em sua mais recente obra literária, “Pequeno Manual Antirracista”, lançada no final de 2019. No livro, a filósofa e ativista brasileira convoca os leitores a reconhecerem o racismo enquanto estrutural e a perceberem como ele se manifesta em diferentes dimensões do cotidiano, passando pelo foro individual, cultural, econômico e político.

Em entrevista, Djamila também fala sobre os desafios do País frente à agenda de equidade racial e como será necessário ao movimento negro resistir ao retrocessos apresentados pelo governo Bolsonaro, devido a medidas que impactam diretamente os grupos sociais historicamente mais discriminados, caso da população negra e indígena.

CartaCapital: Qual o objetivo do livro e por que ele vem na forma de um manual?

Djamila Ribeiro: É muito inspirado no livro “How To Be An Antiracist”, do historiador americano Ibram X Kendi, mas também se baseia em um texto que eu publiquei na CartaCapital uns anos atrás, e que está até no meu livro “Quem tem medo do feminismo negro”, que era um manual para os sem noção, bem irônico. Dessa vez, eu quis fazer uma coisa mais didática mesmo, porque às vezes as pessoas não tem noção do resultado de suas atitudes, tem os que reproduzem discurso de ódio conscientemente, mas muita gente reproduz porque vive numa sociedade alienante. Então é fazer um manual para ampliar as referências, trazer leituras de outros autores e provocar as pessoas a refletirem sobre um tema problemático, mas que está tão naturalizado que, por vezes, passa despercebido.

CC: As práticas antirracistas partem do ponto comum de que a sociedade é racista?

DR: Sim, mas mais que isso é preciso entender que o racismo é uma estrutura. Quando a gente fala sobre racismo estrutural, é sobre entender que o racismo faz parte da estrutura da sociedade brasileira, assim como o capitalismo, o sexismo. Isso significa entender a nossa construção enquanto nação, somos um país que nunca aboliu a escravidão; entender o quanto o fato do racismo ser estrutural coloca a população negra em situações de vulnerabilidade. O primeiro passo é entender como o sistema racista se construiu e como ele se reproduz, para depois compreender o que os indivíduos reproduzem. O racismo precisa ser entendido como essa estrutura que não diz apenas do campo individual. No Brasil, é comum as pessoas associarem racismo a um ataque sofrido por uma pessoa negra famosa, por exemplo, mas não entende que racismo é também uma empresa ter 90% dos funcionários brancos, chegar nos espaços e não ter pessoas negras o suficiente, só em lugares de subalternidade. Ou seja, a gente não consegue entender ainda o porquê de a gente reproduzir racismo, então é primordial entender como essa estrutura funciona.

CC: No livro, você convoca as práticas antirracistas em diversas dimensões, indo da dimensão individual – do reconhecimento do racismo em si próprio – para o mundo do trabalho, da cultura. Em algum desses campos, você vê mais dificuldades das pessoas se reconhecerem racistas e partirem para o combate a essas práticas?

DR: De modo geral, para o brasileiro médio, falta o entendimento da estrutura e também o entendimento de que todo mundo reproduz racismo. Tem uma pesquisa que eu cito no livro, do Datafolha, feita na década de 90, que as pessoas reconheciam que o Brasil era racista, mas quando perguntadas se elas eram racistas, a resposta era não. As pessoas não tem a consciência de que elas foram ensinadas dessa forma, e como produzir ações para combater o racismo sem esse entendimento? Há essa resistência a ser superada.

CC: Como você situa o Brasil diante da agenda de equidade racial?

DR: Nos últimos anos, sobretudo nos governos Lula e Dilma, de fato, existiram políticas importantes como a Lei de Cotas, de 2012, em alguns municípios também existiram políticas importantes. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira a adotar cotas em 2001, quando a saudosa Nilcéia Freire era reitora, a Universidade de Brasília (UNB) fez o mesmo em 2004. Existiam essas políticas, sobretudo, no campo da educação. Porém, isso acabou não refletindo no mercado de trabalho, que é onde se tem mais dificuldade de se pensar políticas públicas, tanto para serviços públicos como privados. O avanço também não se consolida nas políticas de segurança pública, campo primordial para a população negra, sobretudo no que diz respeito ao aumento do encarceramento da população negra e também no debate sobre a questão das drogas. Agora, com esse governo, só temos reforçado essa visão de punição, o que apenas fortalece essa estrutura racista vigente.

CC: O governo Bolsonaro representa retrocessos nas agendas dos movimentos negros?

DR: Sinto retrocesso sobretudo com a aprovação do pacote anticrime de Moro, com a falta de políticas direcionadas para as populações indígenas e quilombolas e com a ausência de propostas para as mulheres negras, que são as mais vulneráveis. Para além da figura de Bolsonaro e o que ela representa, como o fato das pessoas se sentirem mais autorizadas a reproduzirem o racismo, não há dúvidas de que teremos que fazer o enfrentamento a isso no campo das políticas públicas e combater retrocessos. A Reforma Trabalhista e a da Previdência, por exemplo, atingem principalmente as populações mais pobres e os grupos historicamente mais discriminados.

CC: O governo Bolsonaro representa retrocessos nas agendas dos movimentos negros?

DR: Sinto retrocesso sobretudo com a aprovação do pacote anticrime de Moro, com a falta de políticas direcionadas para as populações indígenas e quilombolas e com a ausência de propostas para as mulheres negras, que são as mais vulneráveis. Para além da figura de Bolsonaro e o que ela representa, como o fato das pessoas se sentirem mais autorizadas a reproduzirem o racismo, não há dúvidas de que teremos que fazer o enfrentamento a isso no campo das políticas públicas e combater retrocessos. A Reforma Trabalhista e a da Previdência, por exemplo, atingem principalmente as populações mais pobres e os grupos historicamente mais discriminados.

Fonte: Geledés

O Relatório Mundial 2020 da Human Rights Watch divulgado hoje (15) analisa a situação de mais de 100 países na área de direitos humanos. O documento anual, que está na 30ª edição, analisa como estão protegidos os direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma e religião com base em eventos ocorridos em 2018 e 2019. Entre as mais de 650 páginas, o relatório traz nove delas com análises sobre diversos dados relacionados ao Brasil em questões como segurança pública e meio ambiente.

Sobre segurança pública, o relatório mostra que, em 2018, o número de mortes violentas caiu 18%. A organização não governamental (ONG) diz ainda que "os abusos policiais dificultam o combate à criminalidade porque desencorajam as comunidades a denunciarem crimes ou a cooperarem com as investigações". O texto destaca ainda que, também em 2018, 343 policiais foram mortos, dois terços deles fora de serviço. Outro dado citado, esse do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é que que as mortes cometidas pela polícia aumentaram 20% em 2018.

O documento cobra ações do governo federal e diz que o presidente Jair Bolsonaro, em seu primeiro ano de mandato, teria promovido uma agenda contra os direitos humanos, “adotando políticas que colocariam populações vulneráveis em risco”, no que teria sido limitado pela atuação dos tribunais e do Congresso Nacional.

O relatório afirma que redes criminosas de extração ilegal de madeira na Amazônia continuam ameaçando comunidades locais e indígenas. De acordo com a ONG, de janeiro a outubro, o desmatamento na Amazônia aumentou mais de 80% em comparação com o mesmo período de 2018. Ainda segundo a organização, as políticas ambientais do governo federal "deram luz verde às redes criminosas que praticam atividades ilegais de exploração madeireira na Amazônia e usaram de intimidação e violência contra pessoas, residentes locais e agentes ambientais que tentam defender a floresta tropical”.

China 

De acordo com a Human Rights Watch, a elevação da China ao posto de potência mundial prejudica a manutenção dos direitos humanos fundamentais no país e no mundo. “Pequim reprime críticas dentro do país há muito tempo. Agora, o governo chinês está tentando estender essa censura para o resto do mundo. Décadas de progresso atualmente estão sob ameaça. Para proteger o futuro de todos, os governos devem agir em conjunto para resistir aos ataques ao sistema internacional de direitos humanos”, diz a organização no relatório.

Segundo o diretor executivo da organização, Kenneth Roth, há uma crescente ameaça ao sistema global de proteção humana. O relatório destaca a atuação do governo chinês e do presidente Xi Jinping que teria aprofundado a repressão no país. “Os líderes da China encaram os direitos humanos como uma ameaça existencial. Como resultado, as autoridades chinesas procuram censurar as críticas à China no exterior, além de não seguir com os compromissos globais assumidos e enfraquecer os mecanismos de proteção aos direitos globais”, destaca o documento.

O relatório destaca supostas violações de direitos humanos em cada um dos países analisados e verifica como atores importantes, entre eles a Organização das Nações Unidas (ONU), estão atuando nessas localidades.

Ainda segundo o documento, existem no mundo governantes populistas que assumiram os cargos “demonizando minorias”. O relatório diz ainda que líderes mundiais reprimem as leis internacionais de direitos humanos da mesma forma que a China e atacam governantes que valorizam essa legislação.

Fonte: Agencia Brasil

Como a maternidade pode impactar a vida das mulheres no mercado de trabalho

“Não tem como trabalhar e cuidar das duas”, desabafa a cabeleireira Adenilda Ramos da Silva, de 37 anos. É apenas fora do mercado de trabalho que ela consegue conciliar os cuidados das filhas Jennifer e Lorena.

Há pelo menos 3 anos ela tenta uma vaga em uma escola para a mais velha, de 21 anos, que tem paralisia cerebral — e há quase 6 meses espera uma vaga em creche para a mais nova, de 2 anos. 

Por causa do tempo que dedica às filhas — e sem poder contar com o ensino público —, Adenilda deixou a profissão de lado e as despesas de casa recaem todas sobre o marido, que trabalha como zelador. “Hoje faço doces e bolos para ajudar a pagar as contas. Mas só quando tem encomenda, o que é bem raro”, conta. 

Adenilda está entre as milhares de brasileiras que vivenciam o impacto da maternidade no mercado de trabalho, em um cenário em que a divisão dos cuidados com os filhos ― seja com familiares ou com o Estado ― ainda é um problema. 

A pouca presença dos pais nesse papel e a forma como os cuidados domésticos ainda são divididos na maioria dos lares brasileiros são algumas das causas que levam as mulheres a ainda pagar um alto custo pela maternidade. Esse é o diagnóstico de Adriane Reis, procuradora regional do Trabalho de São Paulo (MPT-SP).

“A falta de mulheres no mercado de trabalho em geral não está restrita só à maternidade. Ela entra como mais um elemento do problema, desse conjunto de preconceitos e estereótipos que a gente observa”, afirma Reis, que destaca a diferença salarial entre homens e mulheres. Elas ocupam menos da metade dos postos de diretores e gerentes no mercado de trabalho e ganham quase 30% menos que eles, segundo dados mais recentes do IBGE.

Uma pesquisa da consultoria IDados com base em informações do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2018, mostra que o salário médio de uma mulher sem filhos é de R$ 2.115,39 no Brasil. Este valor cai em cerca de 1/4, para R$ 1.560,50, quando ela tem filhos.

Para os homens, é menor a diferença, quando observada a relação entre remuneração e paternidade. Enquanto pais ganham, em média, R$ 2.003,28, o brasileiro sem filhos recebe R$ 2.228,77 (11% a mais).

“Essa situação diz respeito, principalmente, a uma compreensão patriarcal da sociedade brasileira que coloca os homens como ‘mais capacitados’ para o desempenho de uma função fora de casa, fora do ambiente doméstico. Assim, as mulheres ficam vinculadas à vida privada, aos cuidados dentro de casa”, aponta a procuradora. “Enquanto mães, elas desempenham um trabalho que é invisível, não remunerado, mas que atende a um interesse público.”

Com filhos, mas sem emprego

Um estudo publicado pelo IBGE em 2017 mostra que a geração de filhos tem impacto diferente na empregabilidade de homens e mulheres no Brasil.

Segundo a pesquisa “Aspectos dos cuidados das crianças com menos de 4 anos de idade”, no grupo em que as mulheres foram identificadas como as principais responsáveis pelas crianças nessa faixa etária, apenas 42% estavam empregadas. Quando são os homens os principais responsáveis, 89% deles continuam empregados.

O estudo “Licença-maternidade e suas consequências no mercado de trabalho do Brasil”, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), traz resultado semelhante. Segundo a pesquisa, entre brasileiros de 25 e 44 anos, a taxa de emprego é de 41% para mães de crianças de até 1 ano, e de 92% quando são pais na mesma situação.

O mesmo estudo ainda aponta que, embora a licença-maternidade garanta estabilidade no emprego por um certo período de tempo, não é o suficiente para manter a empregabilidade feminina a médio prazo. Segundo o levantamento, do total de mães pesquisadas entre 2009 e 2012, 48% saíram de seus empregos nos primeiros 12 meses após ter seus filhos.

Foi o caso da assistente administrativa Gisleine Moreira, de 30 anos, demitida no início deste ano, justamente por precisar se dedicar aos cuidados com o filho, Mateus, de 8 meses, ao voltar da licença-maternidade. 

“A justificativa foi esta: que eu estava faltando muito. E eu não tinha com quem deixar o meu filho, então essa era minha solução mesmo”, conta Gisleine, que mora na divisa entre São Paulo e Diadema. “Preciso que ele esteja na creche para que eu possa trabalhar. Não tem como.”

Separada do marido, hoje ela vive com o valor do seguro-desemprego. “Eu preciso trabalhar. Como vai ser depois que o seguro acabar? Quando preciso, eu deixo ele com uma vizinha e pago ela por isso, mas não é sempre que ela pode. Até quando não vou poder trabalhar?”, questiona.

De acordo com a legislação atual, a licença começa 28 dias antes do parto e vai até 92 dias depois — mas pode haver um acordo quando a grávida trabalha até perto da data do nascimento do bebê. Empresas que aderiram ao Programa Empresa Cidadã, criado pelo governo federal em 2006, estendem o benefício para 6 meses.

Licença-maternidade

Poucas empresas adotaram a ampliação da licença-maternidade para 6 meses, de acordo com a pesquisadora Marilane Teixeira, da Unicamp. Dados de 2016 mostram que em torno de 17% das organizações que se enquadraram nas exigências tinham aderido até então, segundo informações da Secretaria de Política para Mulheres, com base em dados da Receita Federal. Em troca da extensão da licença, a empresa pode deduzir integralmente no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica a remuneração da empregada nos 60 dias de prorrogação do benefício.

A licença-maternidade é apontada pela historiadora Glaucia Fraccaro, professora da PUC de Campinas, como parte das conquistas da legislação trabalhista brasileira que possibilitou uma visão de justiça social que envolvesse as mulheres e “considerasse que a reprodução da vida é parte da produção de riquezas”.

Na avaliação da especialista, essa perspectiva fica clara após a aprovação da Proposta de Emenda Constituição (PEC) das domésticas, em 2013, como forma de reconhecimento do trabalho doméstico.

“Começa a se entender que, para valorizar esse trabalho, é preciso entender que ele é parte da riqueza ou da forma como a gente pensa o salário. Se a gente quer considerar a experiência das mulheres, não dá para considerar o salário só como um pagamento pelo trabalho exercido”, disse Fraccaro ao HuffPost. ”É uma concepção de sociedade que você coloca no holerite das pessoas todo mês o que é justo.” 

 

Divisão do trabalho doméstico e sobrecarga feminina

Entre 2005 e 2015, o número de famílias compostas por mães solo subiu de 10,5 milhões para 11,6 milhões, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) 2017. Para Fraccaro, no entanto, o crescimento do número de lares chefiados por mulheres revela também uma maior presença feminina em situações de sobrecarga. 

“Esse critério de empoderamento esconde um pouco uma grande massa de trabalho que é quase exclusiva das mulheres”, diz. O impacto é visto na renda: do total de famílias desse tipo, 57% está abaixo da linha da pobreza, de US$ 5,5 (cerca de R$ 22) por dia, segundo a pesquisa.

A divisão do trabalho doméstico ainda é desigual entre gêneros. Em 2018, 93% das brasileiras disseram realizar tarefas do lar ou de cuidados com pessoas no domicílio, segundo a Pnad 2018. Entre os homens, o indicador era de 80,4%, e chegava a 73,1% no Nordeste. Quanto ao número de horas gastas nessas funções, a média delas é de 21,3 horas semanais — quase o dobro das 10,9 horas para eles.

O cuidado com familiares está diretamente relacionado à dificuldade de acesso à creche. Em 2016, 3,4 milhões de brasileiros entre 0 e 3 anos tinham esse direito garantido, o equivalente a 32% dessa faixa etária. Especialistas avaliam que a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de atingir 50% da cobertura em 2024 não deve ser cumprida devido a cortes de gastos em programas sociais.

Além do ritmo lento de aumento da rede pública, a iniciativa privada também falha. Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, afirma que muitas empresas não cumprem a previsão de pagar auxílio-creche ou de oferecer um espaço físico para que as mães deixem o filho de 0 a 6 meses no horário do expediente. A obrigação é para organizações com mais de 30 funcionárias com mais de 16 anos.

“Objetivamente a maioria das mulheres está à margem do acesso à creche pública ou do auxílio oferecido pelas empresas e auxílio-maternidade”, afirma a professora. 

Na avaliação de especialistas, a redução de serviços públicos ligados a cuidados, como creches, escolas e sistema de saúde transfere o ônus dessas atividades para as mulheres.

“Se o projeto político é diminuir os equipamentos públicos — o que inclui creches, hospitais, escolas, saúde pública —, há por trás dele, nitidamente, a ideia de que as mulheres vão desempenhar todas essas tarefas que o Estado vai estar desobrigado”, afirma Fraccaro.

Para a historiadora, não só o poder público, mas a sociedade como um todo deveria compreender que “produzir a vida é fundamental para produzir riqueza, para que o Estado funcione, para que o trabalho aconteça, para que a sociedade se desenvolva”, e que isso é feito por meio da valorização dos cuidados domésticos e com grupos que precisam de ajuda, como crianças e idosos.

A pesquisadora alerta ainda para possíveis impactos dessas decisões na redução da autonomia financeira feminina, que pode agravar a situação da violência doméstica. ”[Com a redução dos serviços públicos], essas 24 horas semanais de trabalho doméstico não remunerado vão explodir de uma forma que nós vamos ter nossa autonomia muito reduzida a ponto de não conseguir decidir sobre o nosso próprio destino. Isso soa como um capricho, mas, para os homens, é o sinônimo de humanidade. Ser humano é poder decidir o próprio destino.”

 

Os impactos da reforma trabalhista e previdenciária para as mães

A diferença dos rendimentos mensais entre homens e mulheres é também refletida na aposentadoria. O valor médio do benefício pago pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) para mães é de R$ 1.229,79, enquanto aposentadas sem filhos ganham R$ 1.602,20, segundo a pesquisa “Diferenças na legislação à aposentadoria entre homens e mulheres: breve histórico”, publicada pelo Ipea com base em dados de 2015 da Previdência Social.

Elas também são maioria entre as que se aposentam por idade, segundo a pesquisa. Representam 64% desse grupo, com benefícios em torno de um salário mínimo. Na modalidade de aposentadoria por tempo de contribuição, em que os rendimentos são maiores, a presença feminina cai para 30%.

Essa lacuna pode aumentar ainda mais com a reforma da Previdência, na avaliação de Marilane Teixeira, da Unicamp. De acordo com a professora, as brasileiras que chegam aos 60 anos contribuíram, em média, por 18 anos com o INSS. “Quando se amplia para 40 anos o tempo de contribuição, está se condenando a absoluta maioria das mulheres a nunca se aposentar ou aposentar com valor mínimo”, afirma.

Na avaliação da especialista, uma série de fatores diminui a capacidade contributiva das mulheres para a Previdência. “Elas passam boa parte da vida laboral na intermitência do desemprego, do trabalho precário, por conta própria, informal. São elas que ficam mais tempo desempregadas, demoram mais para retornar ao trabalho, eventualmente têm que se ausentar por conta de licença-maternidade”, pontua Teixeira.

“Muitas vezes quando voltam ao trabalho, são demitidas ou pedem demissão porque não têm com quem deixar os filhos. Ficam 2, 3 anos fora do mercado de trabalho. Voltam para o mercado informal. Essa é a trajetória de trabalho das mulheres”, completa.

Ainda sobre o sistema de Seguridade Social, a pesquisadora lembra que as mulheres são 57% dos beneficiários do BPC (Benefício de Prestação Continuada), amparo no valor de um salário mínimo pago a pessoas com mais de 65 anos.

Porém, se a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garantiu a conquista de direitos para as mulheres, uma série de mudanças recentes na regulação do mercado de trabalho pode, por sua vez, ter um impacto maior para esse grupo.

Em vigor desde novembro de 2017, a reforma trabalhista revogou a proibição de gestantes e lactantes trabalharem em locais insalubres e mudou as regras de pausa para amamentação. Lactantes têm direito a duas pausas de 30 minutos até os 6 meses da criança. Com a reforma, o horário desse intervalo passou a ser negociado com o empregador — o que, na avaliação de Fraccaro, coloca “os interesses da empresa acima das recomendações da Organização Mundial da Saúde”.

Em maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes suspendeu essa permissão. A decisão tem caráter provisório e o mérito ainda será analisado pela Corte.

Outro impacto perceptível da reforma foi sobre a regulação de modalidades consideradas precarizadas de emprego, como o trabalho parcial (que resulta em remuneração total menor) e o trabalho intermitente (contratação por períodos parciais, em que o empregador pode convocar o empregado para determinado turno com até 3 dias de antecedência). Como as mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados dos filhos, esse tipo de acordo tem um impacto maior para elas na organização da rotina.

Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mostram que as mulheres representavam 64% dos contratos em tempo parcial nos 3 primeiros meses de 2019. Nesse grupo, a remuneração média foi de R$ 904,61, inferior ao salário mínimo.

“Com salários inferiores a um mínimo, as pessoas precisam completar a contribuição previdenciária para poder incluir o período no tempo de contribuição”, destaca a professora da Unicamp.

“Essa reforma vem de um jeito muito prejudicial às mulheres”, avalia a procuradora do trabalho Adriane Reis. “Com essa ausência de obrigação e de adaptação das regras à responsabilidade familiar, o que a gente observa hoje é uma migração de muitas mulheres para a informalidade”, aponta.

“Quando ela [reforma] não tem esse olhar, com esse viés de interesse público, de cuidado das futuras gerações, ela propicia que a gente mantenha e, em alguns casos, até aprofunde a situação de desigualdade das mulheres dentro do ambiente de trabalho”, conclui Reis.

Fonte: https://www.huffpostbrasil.com

Jurista Silvio Luiz de Almeida, professor da FGV, discute sobre preconceito e discriminação racial em entrevista ao UM BRASIL.

O racismo é mais complexo do que um ato isolado de violência, um evento único. Ele é um processo histórico e político que cria um sistema em que alguns são beneficiados, e outros, prejudicados socialmente, conforme pontua o jurista e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Silvio Luiz de Almeida, em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP.

“Não existe racismo que não seja estrutural. Ele é um mecanismo muito complexo que cria, de um lado, vulnerabilidade, e, de outro, poder. Não existe racismo fora de uma relação de poder. Ele depende de estruturas sociais para que a discriminação continue sendo sistêmica”, analisa.

Almeida caracteriza essa estrutura como sendo constituída de Estado, ideologia, direito e economia. “É preciso ter mecanismos estatais funcionando, mecanismos ideológicos, para reproduzir esse imaginário social sobre o comportamento de pessoas de grupos racializados. É preciso ter mecanismos jurídicos que irão estabelecer o limite do comportamento das pessoas que pertencem a determinados grupos, e é preciso também mecanismos e estruturas econômicas.” 

Na entrevista, o professor explica as diferenças entre preconceito, discriminação e racismo e analisa o sistema de vantagens e desvantagens sociais ao lembrar que as pessoas que ocupam cargos públicos, com maior remuneração, em sua maioria, são brancas. 

“Se todo mundo é igual, se todo mundo convive bem e não há nenhuma barreira para os negros, como explicar que só os brancos estão em posição de poder e destaque? A única forma de se criar esse discurso, e conseguir lidar com a tensão, é [pela] meritocracia, ou seja, [dizer que] a pessoa chegou lá porque teve mais mérito”, critica.

Fonte: https://www.huffpostbrasil.com

No Brasil, estima-se que 536 mulheres foram agredidas, por hora, em 2018. Preocupados em como lidar com a questão e seus impactos na vida de mulheres trabalhadoras, o Instituto Maria da Penha, o Instituto Vasselo Goldoni e o Talenses Group, grupo empresarial de recrutamento profissional, ouviram 311 empresas para saber como elas abordam o problema em suas unidades. Intitulada Violência e Assédio contra a Mulher no Mundo Corporativo, a pesquisa enviou formulários online para as empresas participantes.

 

Apesar de 68% das empresas consultadas terem considerado necessário dedicar tempo à abordagem da violência doméstica sofrida por funcionárias, apenas 19% desenvolvem políticas e ações de combate ao problema. Deste total, 11% declararam que esse engajamento se dá por meio de campanhas de sensibilização e conscientização.

 

Somente 9% têm um canal de ouvidoria para apoio à mulher. Na mesma proporção, as companhias oferecem serviço de psicologia fora de suas sedes e apoio jurídico. Um percentual inferior, de 4%, oferece suporte por meio de uma rede de apoio constituída por mulheres vítimas de violência.

 

Empresas que oferecem atendimento psicológico no próprio ambiente de trabalho totalizam 5%. Os dados mostram ainda que 13% das empresas declararam não saber se têm mecanismos de enfrentamento à violência doméstica.

 

Perfil

Outro indicador importante é relativo ao perfil das empresas que mais se empenham em iniciativas desse tipo. As de grande porte são as que mais se comprometem quanto ao enfrentamento à violência doméstica. Ao todo, 25% das empresas com um quadro de 499 funcionários ou mais investem nisso.

 

Entre aquelas que têm até 99 empregados, a proporção das que estruturam ações e políticas é de 17%, ficando em segundo lugar na lista. Já entre as companhias da faixa intermediária, com um quadro de pessoal entre 100 e 499 pessoas, 11% têm iniciativas para abordar a violência contra a mulher. No que concerne ao tipo de gestão, constatou-se que 21% dos negócios classificados como profissionais decidiram colaborar com o combate à violência doméstica dessa forma, ante 15% das companhias administradas por famílias.

 

O estudo mostra ainda que as empresas estrangeiras tendem a se preocupar mais. Ao todo, 22% delas contam com ações e políticas. No grupo das nacionais, o número é de 17%.

 

Menos de um terço das empresas ouvidas (26%) afirmou que monitora os casos de violência contra funcionárias e intervém, contra 55% que declarou não fazê-lo. Dentre as justificativas apresentadas destacam-se as seguintes: não está na agenda prioritária da organização (33%); dificuldade de mensurar e controlar (13%) e falta de apoio da liderança (12%).

 

Assédio sexual e moral

O estudo também revelou informações sobre o modo como os empreendedores têm atuado em face do assédio sexual e moral contra mulheres. De acordo com o Tribunal Superior do Trabalho (TST), somente no ano passado foram movidas, na Justiça do Trabalho, mais de 56 mil ações relativas a assédio moral.  

 

O setor industrial recebe destaque positivo: 74% das empresas afirmam desenvolver iniciativas para enfrentar esses crimes. Em relação aos representantes do setor de comércio e serviços, as porcentagens são de 57% e 54%, respectivamente.

 

No caso do assédio, a maior adesão se dá entre as empresas de perfil profissional (66%) e com um quadro de mais de 499 funcionários (77%), formado, majoritariamente, por mulheres (64%). Os dados mostram que 60% das empresas participantes adotam ações de combate ao assédio e que o canal de denúncias é o principal meio (38%).

 

Equidade, igualdade e coibição

A gerente de Comunicação, Marketing e Inteligência de Mercado da Talenses, Carla Fava, ressalta que há outros fatores que podem contribuir para o combate à violência de gênero nas organizações. Segundo ela, ao valorizar as funcionárias, designando-as a cargos de chefia, uma empresa estará fortalecendo essas mulheres e mitigando os prejuízos que relações de poder podem gerar.

 

Na avaliação da gerente, as organizações estão "mais abertas" a monitorar o assédio do que a violência doméstica porque esta última acontece em um ambiente privado e fora das empresas. Para Carla, esse fato reforça a impressão de que a violência doméstica não é um problema social e que os gestores podem se eximir de discutir o assunto, por, supostamente, não terem relação com ele. "Esse distanciamento que tem com a violência doméstica faz com que [a empresa] tenha dificuldade de enxergar que esse problema também é dela", afirma.

 

Feita ao longo de dois meses, no segundo semestre deste ano, a pesquisa está disponível, na íntegra, no site do Talenses Group. Para elaborá-la, os autores contaram com o apoio institucional do Instituto Patrícia Galvão e da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), entre outras entidades.

 

Fonte: Agência Brasil

Ela é a primeira super-heroína de quadrinhos da Índia. Ela cavalga um grande tigre de Bengala, e, em vez de leggings, veste sári ou um salwar kameez, outra roupa tradicional entre as mulheres indianas. Ela também é alguém que sobreviveu a um estupro coletivo e que fez de seu trauma, uma arma.

Priya, a personagem em questão, é surpreendente sob muitos aspectos. Ela inicia sua jornada como um garota camponesa indiana simples, mas em três graphic novels aclamadas pela crítica, combate os demônios do estupro, do ataque com ácido e, mais recentemente, do tráfico sexual. Mas quem imagina decapitações e cenas de vingança sangrentas inspiradas na deusa Kali ― uma das divindades do hinduísmo cuja representação é manchada de sangue, com cobras e um colar de crânios ― pode acabar se decepcionando.

As tramas dos três livros possuem uma nuance crítica: o fato de que rejeitam a dicotomia de bem versus mal vista na maioria das histórias sobre super-heróis. E o modus operandi de Priya é diferente de muitos outros: ela não apenas derrota os vilões como reconhece o sistema sociocultural que os criou. Outro aspecto inovador dos livros: Priya foi uma das primeiras HQs da Índia a usar realidade aumentada. As histórias ganham vida surpreendente quando você scaneia as capas e páginas com o aplicativo chamado Artivive.

Priya foi vista pela primeira vez em Priya’s Shakti, de 2014, publicado contra o pano de fundo do estupro coletivo hediondo cometido em Délhi em dezembro de 2012. Nessa história de origem, somos apresentados a Priya, uma jovem que é humilhada e rejeitada depois de sofrer uma agressão sexual. Em seu desespero, ela pede ajuda aos deuses.

Enquanto o Senhor Shiva quer castigar todos os homens por converter-se em “degenerados”, revogando sua capacidade reprodutiva, a deusa Parvati tem outra ideia: ela envia Priya em uma missão para salvar o mundo, mudando as normas sociais profundamente patriarcais que levam à violência contra as mulheres.

Em Priya’s Mirror, de 2016, Priya dá as mãos às vítimas de ataques com ácido para juntas combaterem o rei demônio Ahankar e divulgarem uma mensagem sobre corpos e liberdade das mulheres.

PUBLISHERS
Uma cena de Priya and The Lost Girls

No livro mais recente da série, Priya and the Lost Girls (Priya e as garotas perdidas, em tradução livre), lançado em 2019, Priya volta para seu povoado para investigar o desaparecimento de meninas e mulheres jovens, entre elas sua própria irmã Laxmi. Ela então descobre que elas foram levadas a um prostíbulo subterrâneo na cidade que é comandado por um demônio chamado Rahu cujo poder vem do controle que ele exerce sobre a mente e o coração de mulheres. Cabe a Priya libertá-las do feitiço dele e intervir para salvá-las, sendo que os habitantes de suas aldeias as rejeitam.

Priya é mais uma guerreira de justiça social do que uma cruzadista sedenta de sangue. Mas isso não a impede de ser incisiva e forte quando mergulha em montanhas vulcânicas com o tigre voador que ela amansou para ser seu pet, espalhando seu sangue divino sobre monstros míticos para derrotá-los.

“Priya não é uma super-heroína qualquer”, diz o cineasta Ram Devineni, produtor e criador da série Priya. “Apesar de cavalgar um tigre, sua principal força é seu poder de persuasão.”

A dramaturga Dipti Mehta, que passou muito tempo nas zonas de prostituição de Mumbai fazendo pesquisas para seu premiado espetáculo individual Honour, foi chamada para coescrever a história do terceiro livro.

Ruchira Gupta, fundadora da Apne Aap Women Worldwide – uma das maiores ONGs mundiais que apoiam meninas e mulheres em situação de risco na Índia e nos Estados Unidos – também participou do trabalho e ajudou a deitar as bases da história.

“Em meus anos de pesquisa, descobri, para meu horror, que existe uma cadeia de fornecimento muito eficiente que se estende de vilarejos no interior da Índia e do Nepal até bordéis em Mumbai, Délhi, Kolkata e Patna. Os clientes pagam um valor irrisório por cada estupro, algo como 30 centavos de dólar, contribuindo com uma indústria multibilionária”, explica Gupta.

Esses clientes pagam um valor irrisório por cada estupro, algo como 30 centavos de dólar, contribuindo para uma indústria multibilionária.

Um cenário típico, ela disse, envolve um agente que oferece a um camponês um valor de cerca de US$100 (o equivalente a R$ 420 reais) por sua filha de 13 anos. Em seguida, grupos de meninas são levadas, atravessando fronteiras ilegalmente. Confinadas em barracos por alguns dias, elas são espancadas, passam fome e depois são levadas a transportadores que, por sua vez, as entregam a cafetões nas grandes cidades. Quanto mais nova a menina, maior o preço dela. A rotina diária, que pode se prolongar por cinco anos ou mais, muitas vezes inclui passar dias trancada em um cômodo apertado e ser oferecidas para dez a 15 clientes por noite.

Em janeiro de 2017, Devineni passou algum tempo na zona da prostituição de Kolkata, Sonagachi. Ali ele conheceu dezenas de vítimas de tráfico sexual e decidiu que dedicaria o próximo livro de Priya a essa questão.

A história de Priya and the Lost Girls ressalta vários aspectos do tráfico de pessoas na Índia, incluindo o modo como as mulheres são coagidas a se prostituir e depois não conseguem enxergar uma saída.

“Uma vez absorvidas pelo sistema, as trabalhadoras sexuais são condicionadas a acreditar em certas coisas. Por exemplo, elas começam a se solidarizar com seus opressores, começam a se conformar com essa vida e a pensar que aquele é o único lugar para elas no mundo. Começam a aceitar o trauma como uma realidade inescapável da vida”, diz Mehta.

A história de Priya and the Lost Girls ressalta vários aspectos do tráfico de pessoas na Índia, incluindo o modo como mulheres são coagidas a se prostituir e depois não conseguem enxergar uma saída.

Um tema recorrente nos três livros é a ênfase sobre a natureza sistêmica da violência contra as mulheresPriya and the Lost Girls procura explicar que trabalhadoras sexuais que foram traficadas muitas vezes permanecem nesse trabalho apenas porque sentem que nunca mais serão aceitas na sociedade dita “civilizada”.

“As mulheres geralmente são vistas como culpadas por tudo de ruim que acontece com elas. As pessoas querem lavar as mãos de qualquer responsabilidade por contribuírem para um sistema opressivo que conduz ao tráfico e exploração. Acham mais fácil, em vez disso, culpar a mulher por se prostituir. É mais fácil pensar que ela é suja e imoral, em vez de admitir que a suposta ‘escolha’ dela é fruto de uma sociedade patriarcal”, diz Dipti.

Ruchira Gupta sabe muito bem que a operação de resgate é apenas metade da batalha pela salvação das mulheres. Ainda há outra perspectiva dolorosa pela frente: a reiniciação delas em todos os aspectos da vida pública e privada com um status verdadeiramente digno e igual, algo que implica receber acesso igual à educação, a empregos, habitação, etc.

Ela comenta: “O que eu mais apreciei na história foi que a luta pela liberdade não terminava com a saída das mulheres do prostíbulo, mas com a contestação do sistema, no qual o livro mostra que tanto homens e mulheres estão condicionados a aceitar o patriarcado”.

Sem falar que hoje em dia tudo na sociedade é tão sexualizado, da publicidade até o cinema. Por isso é crucial conscientizar as crianças desde pequenas.

A HQ utiliza uma linguagem “correta”, mas não hesita em mostrar as realidades duras a seus leitores, formados principalmente pelo público juvenil de 13 anos ou mais.

“Os traficantes perseguem principalmente crianças de cinco a 13 anos. Talvez queiramos proteger nossos filhos e a inocência deles, escondendo questões como essas deles, mas com isso só os estaremos colocando em situação de risco. Sem falar que hoje em dia tudo na sociedade é tão sexualizado, da publicidade até o cinema. Por isso é crucial conscientizar as crianças desde pequenas. Eu pessoalmente já comecei a conversar sobre esses assuntos com minha filha de 5 anos e meio”, diz Mehta.

Mas, para adequar-se às sensibilidade das crianças, Mehta deixou a narrativa realista e fantástica em medidas iguais.

Desse modo ela ainda é educativa, mas o fato de ser mítica suaviza o aspecto chocante. “Em vez de Rahu, o antagonista principal, ser um homem, nós o mostramos como monstro. Permanecemos no campo da história e do mito, em vez de ambientar a história na realidade”, explica Mehta.

A série já foi descarregada mais de 500 mil vezes e pode ser encontrada em inglês, espanhol, italiano, português e híndi. Financiada originalmente pelo Fundo de Mídia do Instituto Tribeca de Cinema, a Fundação Ford e o Banco Mundial, a terceira edição foi desenvolvida durante o programa do Artista em Residência do Merriweather District, em Columbia, Maryland. O projeto está sendo produzido pela editora literária e produtora de cinema Rattapallax, com sedes em Nova York e Nova Délhi.

“Descobri que a maioria das pessoas não quer falar desses assuntos”, disse Devineni. “Estupro, ataques com ácido e outros problemas de violência de gênero são temas difíceis. Mas quando a discussão é estruturada em torno de uma super-heroína e uma HQ, torna-se mais acessível. Esse foi o grande avanço que conquistamos. Outra coisa é que depois do caso hediondo do estupro coletivo num ônibus, perpetradores e vítimas viraram foco de muita atenção na Índia. Mas discutiu-se muito pouco sobre o tratamento que a sociedade dá às sobreviventes da violência sexual e sobre o ônus da vergonha que ela impõe às mulheres. Acho que a história em quadrinhos ajudou a deslanchar essa discussão.”

Priya and the Lost Girls foi lançado no dia 26 de novembro, durante a campanha internacional 16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero, que acontece entre 25 e 10 de dezembro. O livro também foi lançado no Sheroes’ Hangout, em Agra (na Índia), em 30 de novembro, e será lançado no Merriweather Art District, em Columbia,  no dia 7 de dezembro.

*Este texto foi originalmente traduzido do HuffPost India e traduzido do inglês.

 

“Coisa boas surgem quando começamos a prestar atenção ao que acontece quando essas mulheres começam a vencer”, diz especialista em eleger mulheres em 49 países.

 

Fundadora do Center for Women and Democracy (Centro para Mulheres e Democracia) e presidente do The Connections Group, em Seattle (EUA), a americana Cathy Allen aposta na geração de mulheres jovens para ampliar a participação feminina na política. Em visita ao Brasil, a especialista em eleger mulheres em 49 países defende que os partidos políticos melhorem o financiamento e o treinamento para ampliar a equidade de gênero.

“O que eu vejo é que muitas mulheres querem concorrer, mas os partidos precisam dar mais oportunidade para mulheres serem treinadas e terem suas candidaturas financiadas. Creio que há muitas oportunidades nas eleições de 2020, considerando que há tantas pessoas aqui que querem renovação política”, afirmou Allen em entrevista ao HuffPost Brasil.

As mulheres são 52% do eleitorado brasileiro, mas quando se mede a presença nos cargos de poder, os números são bem menores. Elas são 15% dos deputados federais e dos senadores e 14% dos vereadores. No Executivo, apenas um estado é governado por uma mulher e 12% dos municípios.

Esse cenário coloca o Brasil na lanterna dos rankings de presença feminina no poder. Estamos na 152ª posição na lista de 192 países que mede a representatividade feminina na Câmara dos Deputados, divulgada pela Inter-Parliamentary Union. Já entre os cargos no Executivo, ocupamos a 161ª posição na comparação entre 186 países, de acordo com o Projeto Mulheres Inspiradoras.

Na visão de Allen, há uma movimentação de novas gerações para renovar os espaços de poder. “Acredito que especialmente as jovens mulheres que tenho visto, de até 45 anos, são muito fortes, têm alta escolaridade, não parecem tímidas e com certeza estão prontas para os desafios de uma campanha. Acredito que essa nova geração tem muito mais confiança e são mais capazes de concorrer. Tenho visto muitas mulheres aqui interessadas em serem parte do grupo de pessoas que tomam as decisões”, disse.

Allen é  vice-presidente de Educação e Treinamento do National Women’s Political Caucus, uma organização que ajuda mulheres a se elegerem em diferentes níveis de governo. Ela é autora de livros e manuais sobre o tema e foi vice-presidente nacional do Comitê Político Nacional das Mulheres nos EUA e fundou o Centro para Mulheres e Democracia, em 2000, para ajudar mulheres a aprender umas com as outras – local e globalmente.

No Brasil, Allen participou do evento “Mais Mulheres na Política FGV: mesa e debate perspectivas e desafios para as próximas eleições”, promovido pela FGV (Fundação Getulio Vargas) em 22 de novembro.

Ao falar sobre o impacto da representatividade feminina na política, a especialista afirmou que é possível ver mudanças concretas no processo de aprovação de leis quando a participação das mulheres no Parlamento chega entre 15% a 20%. “Coisa boas surgem quando começamos a prestar atenção ao que acontece quando essas mulheres começam a vencer”, ressaltou.

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Brasil ocupa 152ª posição na lista de 192 países que mede a representatividade feminina na Câmara dos Deputados, divulgada pela Inter-Parliamentary Union. 

Leia os principais trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: O que te chama atenção sobre o cenário de participação de mulheres na política no Brasil?

Cathy Allen: No Brasil, mais mulheres do que homens estão no Ensino Superior. Temos muitos mulheres trabalhando em empregos qualificados. Quando temos um ambiente melhor para trabalho e educação das mulheres é muito improvável que tenhamos um número tão pequeno de mulheres eleitas como o Brasil tem agora. Isso é incomum e um bom motivo para vir aqui descobrir qual o problema. 

O que eu vejo é que muitas mulheres querem concorrer, mas os partidos precisam dar mais oportunidade para mulheres serem treinadas e terem suas candidaturas financiadas. Creio que há muitas oportunidades nas eleições de 2020, considerando que há tantas pessoas aqui que querem renovação política.

Um dos principais fenômenos nos Estados Unidos não é diferente do que acontece aqui. As pessoas falaram que queriam ver mais pessoas eleitas que se parecem com elas, que agem como elas, que criam os filhos como elas. Eles procuram pessoas gentis, mulheres que têm seus próprios negócios ou que têm empregos comuns. Todos esses tipos de mulheres estão aí. Temos visto muitas mulheres altamente qualificadas.

Tenho certeza que essa energia que está sendo construída pode fazer com que as próximas eleições no Brasil sejam o que as últimas eleições foram para os Estados Unidos, quando mulheres ganharam tanto no nível local quanto nacional.

Por que temos poucas mulheres na política no Brasil? Precisamos mudar a legislação?

O que tem acontecido em vários países é uma redução da diferença de escolaridade entre homens e mulheres. Quando ambos os gêneros têm um bom nível de escolaridade e boas expectativas de participar da sociedade, é que eles se interessam em ser eleitos. O problema não são as pessoas. É o sistema educacional e eleitoral.

*A Lei Eleitoral obriga os partidos a destinar 30% das candidaturas para cada gênero. O mesmo percentual do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário também tem de ser usado para promoção de mulheres na política.

Quais iniciativas para aumentar a participação feminina na política têm dado certo em outros países?

Uma das melhores experiência é na Colúmbia Britânica, no Canadá. Há cerca de 10 anos, quanto eles tinham cerca de 13% de mulheres na política, o Novo Partido Democrático fez uma mudança interna. Sempre que um homem eleito morria ou renunciava ao cargo, ele era substituído por uma mulher, uma “pessoa de cor” ou um homem gay. Em 10 anos, eles foram de 13% de mulheres para 36% e as mudanças promovidas pelas mulheres fizeram história. 

O Canadá têm uma longa história de mulheres nativas que desapareceram. A maioria porque foi morta ou estuprada e nenhuma autoridade foi atrás de descobrir o que aconteceu com elas. Essas mulheres eleitas conseguiram mudar esse cenário. Conseguiram dinheiro e que as forças policiais trabalhassem nisso.

Coisas boas acontecem quando você tem mulheres no poder. Nós enfrentamos muito mais questões de uma maneira que não se fazia antes.

É possível aplicar alguma dessas ideias no Brasil?

Acho que muitas mulheres já estão tentando fazer isso. Eu estava vendo as novas normas, especialmente as relacionadas a financiamento. Há uma pressão para melhorar a arrecadação para candidatas. E olhando para as estruturas dos partidos, há vários tipos de oportunidades para muitos deles distribuirem o dinheiro de maneira mais igualitária para as mulheres. 

A maioria dos partidos no Brasil é controlado por homens e eles também são maioria no Congresso. De tempos em tempos, há tentativas de frear avanços de promoção de mulheres na política.  Como vê esse tipo de situação? É preciso mudar quem está o comando dos partidos?

Temos de ser cuidadosas. Nada nos é dado. É conquistado. Ainda que possa haver diferentes leis para dar às mulheres mais poder e controle do dinheiro, a implementação dessas normas não ocorre de maneira tão simples. Muitas mulheres precisam estar alertas e, honestamente, muitos homens estão interessados em ajudar as mulheres para que elas tenham chances reais de serem eleitas.

Sim, será difícil. Não será fácil e nada nos será dado, mas tenho de dizer que tanta coisa foi feita nos últimos dois anos só porque as mulheres começaram a agir após quase 20 anos sem muito ativismo. Principalmente mulheres jovens começaram a se envolver em diferentes treinamentos. Acredito que as mulheres jovens serão definitivamente parte da solução.

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"Quando as mulheres atingem entre 15% e 20% do Parlamento, eles conseguem propor e aprovar leis. Elas fazem muita diferença", afirma Cathy Allen.

Há indícios do uso de candidaturas laranja de mulheres no Brasil para cumprir a cota de 30%, inclusive na sigla pela qual o presidente Jair Bolsonaro foi eleito, o PSL. Como devemos resolver esse problema? É preciso melhorar a fiscalização feita pela Justiça Eleitoral? É uma questão de mudança cultura?

No passado, algumas mulheres relutavam em votar em outras mulheres. O que tem acontecendo recentemente é um grande aumento no número de mulheres na disputa eleitoral e outras mulheres estão dando contribuições e ajudando nessas campanhas. Candidaturas falsas serão descobertas pelas mulheres que estão atuando de fato nos partidos e pela imprensa. Não é algo difícil de ser identificado. 

Algumas pessoas alegam que há fatores culturais para mulheres não quererem participar da política, que é mais difícil para elas estar longe da família, por exemplo. Como você vê esse tipo de discurso e como atrair mulheres para esse campo? 

A maioria das pessoas não sabem o que os políticos fazem de fato ou como ser eleito. Quando você começa a conversar com as pessoas, elas se mostram mais abertas para isso, começam a procurar os grupos que podem ajudá-las. Há menos mulheres desistindo de disputar agora do que havia há dez anos atrás. Acredito que isso aconteça porque a imprensa têm feito uma cobertura sensata e as pessoas admiram mulheres que conseguiram se eleger. 

Há um novo respeito às mulheres em todo o mundo.  Muitos homens me falam ‘sei que devemos votar nas mulheres. Elas não podem ser tão ruins quanto as pessoas no comando agora’. No nível local, eles sentem que coisas boas acontecem por causa do trabalho dos parlamentares. 

Acredito que especialmente as jovens mulheres que tenho visto, de até 45 anos, são muito fortes, têm alta escolaridade, não parecem tímidas e com certeza estão prontas para os desafios de uma campanha.  

Acredito que essa nova geração tem muito mais confiança e são mais capazes de concorrer. Tenho visto muitas mulheres aqui interessadas em serem parte do grupo de pessoas que tomam as decisões.

Há um proposta em discussão no Congresso para que haja um mínimo de vagas para mulheres no Legislativo. Acha que é uma boa solução?

Muitos países europeus têm sistema similares. Nenhum deles é excelente. Nenhum deles funciona o tempo todo e nenhum deles funciona desde o começo. A parte importante que vejo das políticas de cotas é que, muitas vezes, é o instrumento para as pessoas verem pela primeira vez mulheres no Congresso. Se o governo não consegue dar inspiração e espaço para as mulheres serem eleitas, as cotas são necessárias.

Há muito jeitos de implementar cotas e nenhum é perfeito. As cotas deveriam ser uma inspiração para podemos ver o que acontece se não acharmos mulheres para concorrer voluntariamente. Elas existem para colocar as mulheres no poder porque ainda que elas sejam inexperientes, é melhor tê-las do que não tê-las. Quando as mulheres atingem entre 15% e 20% do Parlamento, eles conseguem propor e aprovar leis. Elas fazem muita diferença.

Com a ascensão da extrema direita no Brasil, temos mulheres eleitas que não têm a equidade de gênero como bandeira. Há algum tipo de conflito em promover uma maior participação feminina na política de parlamentares não feministas?

Não acho que há conflito. Ainda que haja mulheres conservadoras que não concordam com leis [que promovem mulheres na política], elas de fato concorrem e, por vezes, vencem. E nossa experiência diz quanto mais mulheres disputam e ganham, há mais mulheres da classe trabalhadora, jovens, negras ou que têm experiências profissionais diversas, como especialistas em computação, por exemplo. Vemos uma grande diversidade nas mulheres eleitas e muito poucas são de extrema direita. E elas podem dizer o que quiserem, podem discordar. Ser uma república é sobre isso. Além disso, tanto homens quanto mulheres têm se convencido de que será melhor se forem eleitas mais pessoas que pensam e agem como eles.

O Tribunal Superior Eleitoral criou um comitê de gênero neste ano, após uma recomendação da OEA. Há iniciativas similares em outros países? Elas têm resultados positivos?

Temos muitas iniciativas diferentes. Há organizações que ajudam as mulheres a desenvolverem habilidades de liderança. Acho que essas ações são muito boas. Nos Estados Unidos, houve um aumento dramático no número de mulheres que entrou nesse tipo de organização nos últimos anos. Elas triplicaram. Tivemos o movimento Me Too e a eleição presidencial em que esperávamos a vitória de uma mulher e ficamos chocadas quando isso não aconteceu. E na minha experiência, coisa boas surgem quando começamos a prestar atenção ao que acontece quando essas mulheres começam a vencer.

Fonte: https://www.huffpostbrasil.com/

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