Na Mídia

Precisamos pacificar o Brasil, não ficar avaliando se filme tem homem pelado beijando homem, disse Henrique Pires

 

Após a suspensão de um edital de projetos LGBT para TVs públicas, o Secretário especial da Cultura, Henrique Pires, anunciou que deixará o cargo por não admitir que o governo imponha "filtros" na cultura. 

 

Pires comunicou o ministro Osmar Terra (Cidadania), a quem a secretaria é vinculada, sobre sua saída na noite de terça-feira (20). Em rápida conversa com a Folha no Palácio do Planalto, o ministro da Cidadania, Osmar Terra, negou que haja censura. 

 

"Não foi censura, eu estou aqui para resolver isso porque estava com problemas de trabalho", disse o ministro.

 

As informações divergem do relato feito por Pires à Folha. Segundo ele, a suspensão do edital foi apenas a "gota d'água" de uma série de tentativas do governo de impor censura em atividades culturais. 

 

Ele disse que há oito meses vem tentando contornar diversas tentativas de cerceamento à liberdade de expressão.

 

Segundo o secretário, esses filtros estão se propagando pelo governo e as pessoas estão chamando censura "por outro nome". 

 

"Ficou muito claro que eu estou desafinado com ele [Terra] e com o presidente sobre liberdade de expressão", disse o secretário. "Eu não admito que a cultura possa ter filtros, então, como estou desafinado, saio eu".

 

Pires fez ainda comentários sobre as declarações e atitudes do presidente Jair Bolsonaro.

 

"O presidente é um homem simples, um homem humilde. Falta alguém que fale para ele a extensão disso aqui [restrições]", disse. 

 

O secretário disse ter mantido uma conversa amigável com Terra na noite de terça (20), durante a qual comunicou sua saída.

 

Em nota, o Ministério da Cidadania negou as acusações de censura feitas por Pires. 

 

"Ao contrário da versão divulgada pelo ex-secretário especial da Cultura José Henrique Pires, o cargo foi pedido pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra, na terça-feira (20), à noite, por entender que ele não estava desempenhando as políticas propostas pela pasta", diz o texto.

 

Segundo a assessoria da pasta, o ministro se disse surpreso por não ter recebido manifestações do secretário até a conversa de terça. O ministério informou ainda que o secretário-adjunto e secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, José Paulo Soares Martins, assumirá o cargo.

 

"Nós precisamos pacificar o Brasil para trabalhar, e tem gente que não está preocupada, como se não tivéssemos 13 milhões de desempregados e [a gente] precisasse ficar olhando com lupa um filme para ver se tem um homem pelado beijando outro homem."

 

Pires disse que fundamentou todo seu trabalho no artigo 220 da Constituição Federal, se pautando sobre a liberdade de expressão e lembrou que recentemente o STF concluiu julgamento que prevê homofobia como crime. 

 

"Eu não estou saindo contra ninguém, estou saindo a favor da liberdade de expressão", disse. "Ou eu me manifesto e caio fora, ou estarei sendo conivente."

 

Alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em sua última live semanal, veiculada na quinta passada (15), um edital de chamamento de projetos para TVs públicas que tinha entre as categorias de investimento séries com temática LGBT foi suspenso. Uma portaria assinada pelo Ministro da Cidadania Osmar Terra publicada no Diário Oficial da União (DOU) nesta quarta (21) oficializou a decisão.

 

Na live, o presidente havia criticado quatro projetos de séries aprovados para a última fase do concurso e inscritos nas seções de diversidade de gênero e sexualidade. Eram eles "Afronte”, “Transversais”, “Religare Queer” e "Sexo Reverso".

 

Caso aprovados por uma comissão especial, os projetos seriam contemplados com verbas de R$ 400 mil a R$ 800 mil cada um, oriundas do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

 

O caso acontece depois de uma série de declarações em que Bolsonaro promete intervir no teor das produções financiadas por meio da Agência Nacional do Audiovisual, a Ancine, seja criando um filtro ou tirando o FSA do controle da agência, entre outros. Na live, ele chegou a afirmar que se o órgão "não tivesse, em sua cabeça toda, mandatos", ele já teria "degolado tudo".

 

 

Nota do Ministério da Cidadania na íntegra:

 

Ao contrário da versão divulgada pelo ex-secretário especial da Cultura José Henrique Pires o cargo foi pedido pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra, na terça-feira (20), à noite, por entender que ele não estava desempenhando as políticas propostas pela pasta. O ministro se diz surpreso com o fato de que o ex secretário, até ser comunicado da sua demissão, não manifestou qualquer discordância à frente da secretaria. O secretário-adjunto e secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, José Paulo Soares Martins, assume o cargo.

 

Assessoria de Comunicação Social

Ministério da Cidadania

 

Fonte: Folha de SP

 

Presidente atacou produções com temática LGBT em live na semana passada. "Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?", disse.

 

As obras audiovisuais que o presidente Jair Bolsonaro garimpou de edital da Ancine e ameaçou abortar, em live na semana passada, estão entre os finalistas da linha de “diversidade de gênero” de um edital aberto em 2018 para produções de televisão e cinema, que recentemente foi vetado pelo governo.

Em live no Facebook no dia 15 de agosto, Bolsonaro atacou a produção de obras audiovisuais com temáticas LGBT e diversidade sexual, que buscavam autorização da Ancine (Agência Nacional do Cinema) para captar recursos por meio da Lei do Audiovisual. 

O presidente afirmou que a agência não vai liberar verbas para esses projetos e disse, também, que se a Ancine “não tivesse, em sua cabeça toda, mandatos”, já teria “degolado tudo”. Bolsonaro atacou as produções AfronteTransversais, O sexo reverso eReligare queer durante sua fala.

“Fomos garimpar na Ancine filmes que estavam prontos para captar recursos no mercado. E outra, provavelmente esses filmes não têm audiência, não têm plateia, tem meia dúzia ali, mas o dinheiro é gasto. Olha o nome de alguns, são dezenas”, continuou, ao citar nominalmente as obras que concorriam ao edital.

Ao atacar as produções, Bolsonaro negou que sua ação é de censura. “Não censurei nada. Quem quiser pagar, se a iniciativa privada quiser fazer filme de Bruna Surfistinha, fique à vontade, não vamos interferir nisso daí”, disse.

AfronteTransversais, O sexo reverso eReligare queer concorrem à chamada pública “RDE/FSA PRODAV”, que visa garantir verba para a criação de produções para televisão e cinema.

Os vencedores do edital seriam financiados por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Após críticas de Bolsonaro, o governo estuda suspender o edital para que estas produções não recebam verba do setor público. 

Saiba do que se trata cada uma delas:

Transversais, de Emerson Maranhão e Allan Deberton

REPRODUÇÃO
Cena de "Aqueles Dois", curta-metragem lançado em 2016 por Emerson Maranhão.

“Um filme chama Transversais. Olha o tema: ‘Sonhos e realizações de cinco pessoas transgêneros que moram no Ceará’. Conseguimos abortar essa missão”, disse Bolsonaro em live no Facebook no dia 15 de agosto.

O projeto atacado pelo presidente é um desdobramento do curta-documentário Aqueles Dois, de Emerson Maranhão, que conta a história de dois homens transgênero e já foi selecionado para participar de festivais fora do País, como o 4º AMOR - Festival Internacional de Cine LGBT Do Chile.

Com a intenção de continuar a contar essas histórias, Transversais foi inscrito no edital na categoria “diversidade de gênero” em 2018. Em cinco episódios, Maranhão e Deberton querem contar a história de outras cinco pessoas transgênero que vivem no Ceará, assim como fizeram em Aqueles Dois.

Em nota, a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE) criticou a fala de Bolsonaro e destacou que os projetos criticados foram contemplados no edital Cultura LGBT, lançado em 2016 e  voltado para a promoção da memória, e da visibilidade das manifestações culturais e artísticas dessa temática.

“A Secult não pactua com qualquer tipo de manifestação discriminatória – venha de onde vier – que afronte contra a livre expressão artística e cultural de todos os grupos sociais, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação”, disse, ao citar a Constituição.

″Parafraseando Fernando Pessoa, toda maneira de amar e de expressão artística valem a pena quando a alma não é pequena”, finaliza a nota da Secult.

Afronte, de Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo

REPRODUÇÃO
Cena de "Afronte", idealizado e dirigido por Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo.

Afronte. ‘Mostrando a realidade vivida por negros homossexuais no Distrito Federal’”, continuou Bolsonaro na mesma live. “Confesso que não dá para entender. Então, mais um filme aí, que foi pro saco, aí. Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?”, completou o presidente em vídeo.

Produzido por Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo, Afronte é fruto do projeto de conclusão de curso dos produtores, que se formaram em audiovisual na Universidade de Brasília (UnB); filme tem o objetivo de contar a história e mostrar como é a rotina de pessoas LGBT no Distrito Federal.

Para fazer uma série derivada do filme, a dupla entrou com um pedido de patrocínio no edital citado por Bolsonaro. Ideia é semelhante ao que os diretores de Transversais querem fazer; projeto foi inscrito no mesmo edital.

O filme já foi exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 2017 e ganhou o Prêmio Saruê, concedido pela equipe de cultura do jornal Correio Braziliense. À época, para a produção, equipe montou um financiamento coletivo na internet e arrecadaram R$ 10 mil para conclusão do projeto.

Em resposta às falas do presidente, a equipe do filme Afronte publicou uma carta aberta em sua página do Facebook. Segundo o texto, os projetos citados por Bolsonaro “foram tratados de maneira leviana”. 

O grupo ressalta que a Ancine “tem um papel importante na manutenção e no fomento do cinema no Brasil, e esse papel tem que ser exercido respeitando a liberdade artística e compreendendo que somos múltiplos”.

“Esse é o projeto que o Presidente está deliberadamente censurando, num total desconhecimento da forma como os editais funcionam e se excedendo ao que é de competência direta do executivo”, diz o texto.

A carta divulgada pela equipe, que também acusa Bolsonaro de censura,  disponibiliza um link com o filme, recomendando que o presidente assista. 

Religare Queer, da Válvula Produções

“O nome eu não sei pronunciar. ‘Religare Queer’”, disse Bolsonaro na live. “O filme é sobre uma ex-freira lésbica, ok? E daí, são vários episódios”, disse o presidente, ao ler papel com descrição dos filmes com temática LGBT. 

“Tem a ver com religiões tradicionalmente homofóbicas ou transfóbicas. Tudo tem a ver”, disse, ironicamente. E continuou: “Sexualidade LGBT com evangélicos, católicos, espíritas, testemunhas de Jeová, umbanda, budismo, candomblé, judaísmo, islamismo e Santo Daime.”

Projeto não tem informações disponíveis assim como os outros; mas documento aponta que é idealizado pela empresa Válvula Produções, que já produziu filmes sobre a quadrinista Laerte e a cantora Linn da Quebrada.

O Sexo Reverso, de Maurício Macêdo

“Outro filme aqui. ‘Sexo reverso’”, disse Bolsonaro. ”‘Bárbara é questionada pelos índios sobre sexo grupal, sexo oral e sobre certas posições sexuais’”, continuou o presidente. ”É o enredo do filme. Com dinheiro público. E outra, geralmente esses filmes não têm audiência. Não têm plateia. Têm meia dúzia ali. E o dinheiro é gasto. São milhões gastos”, atacou Bolsonaro.

O projeto é Idealizado a partir da pesquisa da antropóloga Bárbara Arisi, que é professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Ela tem um trabalho junto à tribo dos Matis, no Amazonas e participou de uma pesquisa dos próprios indígenas sobre práticas sexuais dos brancos.

Fonte: https://www.huffpostbrasil.com

O Ministério da Saúde passou a recomendar a vacinação contra o sarampo em crianças com idade entre 6 meses e 11 meses e 29 dias para combater a disseminação do vírus no país. Nessa faixa etária, segundo a pasta, será ofertada uma dose complementar, chamada de dose zero, como já acontece em campanhas como a de combate à poliomielite. A orientação foi apresentada hoje (20) em entrevista coletiva na sede do órgão, em Brasília.

 

 

Entre 19 de maio e 10 de agosto deste ano, foram confirmados 1.680 casos de sarampo no Brasil, além de 7,5 mil casos em investigação. No período, de acordo com o ministério, não houve mortes confirmadas decorrentes da enfermidade.

 

Após um surto envolvendo estados da Região Norte no início do ano, um novo surto foi registrado no estado de São Paulo, que concentra, atualmente, 1.662 casos em 74 municípios – 98,5% do total de casos. Em seguida aparecem Rio de Janeiro, com seis casos, e Pernambuco, com quatro. Com um caso estão Goiás, Paraná, Maranhão, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Piauí.

 

A recomendação da vacinação adicional de crianças com idade entre 6 meses e 11 meses e 29 dias se deve ao fato deste ser o público com maior potencial de contágio. O coeficiente de incidência em bebês de até 1 ano é de 38,28 casos para cada grupo de 100 mil, enquanto a média de todas as faixas etárias ficou em 4,12. Normalmente, a imunização acontece por meio de duas doses, aos 12 meses e aos 15 meses de vida.

 

“Temos observado uma incidência elevada em menores de 1 ano. É fundamental estabelecermos estratégia diferenciada para essa faixa etária, olhar para as crianças menores de 1 ano com especial atenção”, declarou o secretário de vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira.

 

Jovens adultos

 

Além dos bebês, outro público que preocupa o ministério é o de jovens adultos. A pasta destacou a necessidade de pessoas de 20 a 29 anos regularizarem a vacinação contra o sarampo – o grupo tem coeficiente de incidência de 9 casos para cada grupo de 100 mil, mais que o dobro da média nacional. A orientação vale especialmente para São Paulo, estado com muitos casos e alta densidade populacional.

 

De acordo com o ministério, pela rotina de imunização estabelecida, pessoas com até 29 anos devem já ter recebido duas doses contra o sarampo. Já quem tem entre 30 e 49 anos deve ter tomado pelo menos uma dose. O secretário ponderou, contudo, que não há necessidade de corrida aos postos de saúde e que a regularização pode ser feita tranquilamente.

 

Difícil controle

 

Questionado sobre as razões da propagação do sarampo no país, Oliveira argumentou que a natureza do vírus e de sua transmissão dificultam o controle, especialmente com um surto em uma região como o estado de São Paulo.

 

“O sarampo é doença de transmissão respiratória. É rastilho de pólvora. Para cada caso, podemos ter 18 pessoas infectadas. É extremamente complexa a contenção da situação viral, principalmente num estado com a densidade demográfica que São Paulo tem”, disse. Entre os principais obstáculos, segundo ele, estão a falta de imunização em adultos jovens e a dificuldade de conscientização desse público. 

 

Estoque

 

O secretário relatou que já foram disponibilizadas 7,5 milhões de doses da vacina para o estado de São Paulo, além do apoio a campanhas de comunicação para sensibilizar os públicos mais afetados pelo vírus. Ele acrescentou que as vacinas adicionais para bebês devem totalizar cerca de 1,6 milhões de doses e que os estados estão abastecidos, mas que o governo está buscando um estoque complementar com fornecedores externos.

 

O representante do ministério apontou como problema a atuação de movimentos antivacina que, segundo ele, se alimentam de desinformação e notícias falsas para recusar a imunização necessária. O ministério disponibilizou uma seção em seu site para desmentir notícias falsas e oferecer outras informações.

 

Fonte: Agência Brasil

 

Segundo a Constituição, salário mínimo deve ser suficiente para atender necessidades básicas de uma família

Desde o dia 1º de janeiro, o salário mínimo nacional é de R$ 998. No ano passado, ele era de R$ 954. Isso significa que ele teve um aumento de 4,61% de 2018 para 2019.

O que muitos brasileiros desconhecem é que, segundo a Constituição brasileira, o salário mínimo do país deveria ser capaz de atender às necessidades básicas do trabalhador e também da sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde e lazer.

Constituição Federal de 1988 é o conjunto fundamental e supremo de leis do Brasil, servindo de parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas.

De acordo com o Art. 7º, inciso IV da Constituição, todos os trabalhadores têm direito a:

 Salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), para suprir todas as necessidades acima e cumprir a lei no Brasil, o salário mínimo deveria ser, em julho deste ano, de R$ 4.143,55. Isso significa que, para cumprir a lei, o salário mínimo atual deveria ser mais de 4 vezes o que é atualmente (R$ 998).

Para fazer uma comparação, o valor estimado pelo DIEESE para o salário mínimo ainda é mais baixo do que o auxílio-moradia (R$ 4.377,73) pago a parlamentares, juízes, desembargadores, ministros e outros cargos do governo, que recebem o benefício segundo alguns critérios.

Fonte: Observatório do Terceiro Setor

Automatização de setores como call centers afeta empregos.

O paulista Robinson de Jesus Martins, de 40 anos, trabalhou, por sete anos, num call center que fazia o atendimento de uma empresa aérea e de um grande banco. Ele conta que cada “ilha de atendimento” tinha mais de 400 pessoas. Martins chegou ao cargo de coordenador, mas acabou perdendo o emprego após todos os processos da empresa terem sido automatizados.

 Um estudo de pesquisadores da Universidade Harvard, nos EUA, mostra que muitos outros brasileiros vão correr o risco de perder o emprego para a tecnologia, o que desafia o país a preparar melhor seus trabalhadores para desenvolver habilidades que as máquinas não têm.

A pesquisa estima que 44,5 milhões de profissionais dos setores formal e informal, ou 53% da força de trabalho do país, estão em ocupações com 70% de chance ou mais de serem automatizadas nas próximas décadas com o uso de técnicas já existentes ou tecnologias em desenvolvimento com grande probabilidade de serem viabilizadas, como é o caso de carros autônomos. Entre as categorias com maior risco de automação estão motoristas (98% de chance), auxiliares de escritório (97%), vendedores de lojas (95%) e caixas (90%). O estudo analisou os efeitos em 373 ocupações no país.

Método aplicado ao Brasil

Com o título de “O Brasil Precisa se Preparar para a Era da Inteligência Artificial?”, o trabalho foi realizado pelo economista brasileiro João Moraes Abreu e pela cientista em computação russa Katya Klinova para uma dissertação de mestrado no curso de Administração Pública e Desenvolvimento Internacional da Harvard Kennedy School of Government. Uma das orientadoras foi Carmen Reinhart, única mulher no atual ranking dos 12 economistas mais citados em trabalhos acadêmicos nos EUA.

A base da pesquisa sobre o Brasil foi um trabalho anterior feito por dois pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em que especialistas em inteligência artificial identificaram ocupações nos EUA para as quais já existe tecnologia para executá-las de forma automática e também as que provavelmente serão “automatizáveis”. A partir desse trabalho, os pesquisadores de Harvard buscaram as atividades equivalentes no mercado brasileiro. Além de apontar as profissões mais ameaçadas pela tecnologia, o estudo sobre o Brasil concluiu que homens correm mais riscos que mulheres e que os trabalhadores que ganham menos estão nas posições mais vulneráveis.

 — Embora faça algum sentido que ocupações com salários menores sejam mais fáceis de automatizar, isso não é sempre verdade. Avanços recentes em telemedicina sugerem que atividades que até há pouco exigiam elevado conhecimento médico podem ser executadas por máquinas. O dado sobre o Brasil nos surpreendeu — diz Klinova.

Robinson Martins perdeu o emprego no setor de call center onde trabalhava depois que tudo foi automatizado. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Os pesquisadores ressaltam que, ainda que as previsões sobre o desenvolvimento de tecnologias de automação se mostrem verdadeiras, isso não significa que todas serão adotadas. Vai depender da viabilidade econômica do investimento parar trocar humanos por máquinas. Mas, principalmente na eventualidade de profissões que empregam pessoas de baixa renda serem mais afetadas, o provável efeito do avanço de tecnologias como a inteligência artificial será o aumento da desigualdade social. Isso exigirá uma resposta de políticas públicas, como mais investimento em educação.

— Para desenvolver habilidades que as máquinas não podem desempenhar é preciso ter acesso a um bom sistema educacional e a ambientes familiares estáveis. Quem não tiver isso tem probabilidade alta de ficar para trás — alerta Abreu.

Menos agência, mais app

De certa forma, o futuro já chegou em muitos setores. No de telemarketing, que já foi um grande empregador, é crescente o uso de assistentes virtuais de voz e softwares que permitem interações entre clientes e máquinas por mensagens de texto. No bancário, a automação fecha cada vez mais vagas. Segundo dados do Caged, cadastro do Ministério do Trabalho que contabiliza admissões e demissões, foram fechadas 60 mil vagas no setor nos últimos sete anos. Eram 513 mil empregados em instituições financeiras em 2012 e hoje são cerca de 450 mil.

— Bancos e teles são responsáveis por mais de 40% das contratações de empresas de telemarketing. E são eles que mais estão automatizando o atendimento — diz Marco Aurélio Coelho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing (Sintratel).

Para o economista Gustavo Cavarzan, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que estuda o impacto das tecnologias no mercado de trabalho das instituições financeiras, trata-se de uma queda considerável num prazo curto. Ele observa que, no mesmo período, as operações bancárias digitais avançaram:

— Em 2008, 18% do total de transações bancárias eram feitos na agência. Hoje, são apenas 5%. O celular, que respondia por 1% das operações em 2012, já concentrava 40% no ano passado.

Por outro lado, ressalta Cavarzan, o avanço da tecnologia cria novas posições em setores em transformação como o bancário, ainda que não na mesma proporção da redução dos postos de trabalho tradicionais. Uma dessas novas funções é a de cientista de dados, um profissional capaz de administrar o enorme volume de informações que hoje a tecnologia permite acumular numa atividade como a bancária.

— Um grande banco tinha 33 cientistas de dados em 2017. Hoje tem 250 — diz Cavarzan.

Tecnologia também cria oportunidades

Se a automação está fechando vagas em diversos setores, novas oportunidades de emprego trazidas pelas inovações vão se abrir, inclusive na indústria. Pelo menos 30 novas profissões em oito áreas devem surgir nos próximos cinco ou dez anos, com o avanço da chamada Indústria 4.0, como tem sido chamada a revolução provocada pela tecnologia nos sistemas produtivos. A estimativa é de um estudo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

No setor automotivo, por exemplo, a previsão é de mais vagas para mecânicos de veículos híbridos ou técnicos em informática veicular. Na construção civil, gestores de logística de canteiro de obras ou técnicos de automação predial terão mais chances de emprego. Também devem surgir profissionais como designer de tecidos avançados, no ramo têxtil, e, no ramo de tecnologia, mais espaço para especialistas em big data, a gestão de dados. Outras profissões que devem se transformar estão em setores como petróleo e gás, química e petroquímica e máquinas e ferramentas.

Na Gupy, empresa de recrutamento baseada em inteligência artificial de São Paulo, a tecnologia, em vez de demitir, tem gerado empregos. Criada em 2015, a empresa tinha 30 funcionários no início de 2018. Hoje, são 100, metade deles da área de tecnologia.

Usando algoritmos, que são programas de computação, os cerca de 1 milhão de currículos na base de dados da empresa podem ser ranqueados em 33 minutos. Se o mesmo processo tivesse que ser feito manualmente por uma pessoa, seriam necessárias 21 mil horas de trabalho. Com a tecnologia, a empresa alcança alta produtividade, um dos principais problemas da economia brasileira, sem dispensar especialistas de carne e osso.

— Nosso trabalho não substituiu totalmente a mão humana. Fazemos uma pré-seleção que depois precisa ser analisada por pessoas que trabalham no setor de recursos humanos — diz Guilherme Dias, um dos sócios da Gupy.

A Indústria 4.0 integra o mundo físico e virtual por meio de tecnologias digitais. O grande desafio no Brasil, concordam os estudiosos do assunto, será qualificar e requalificar as pessoas para essas novas funções, o que inclui a melhoria do ensino e programas de atualização para profissionais que já saíram da escola ou da universidade.

— A tecnologia vai destruir muitos empregos, mas também vai gerar novos. Um levantamento do Fórum Econômico Mundial mostrou que serão 133 milhões novos empregos no mundo nos próximos cinco anos. Mas será preciso um esforço para preparar as pessoas para preencher essas vagas, incluindo o Brasil — disse Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai.

Fonte: O Globo

Por ocasião do Dia Internacional da Juventude, 12 de agosto, relatores da ONU alertaram que jovens LGBTI correm riscos mais altos de viver em situação de rua devido à rejeição familiar e à discriminação na escola. Uma vez desabrigadas, essas pessoas podem ter outros direitos humanos violados, além de ter chances maiores de desenvolver problemas de saúde mental.

“Como resultado da intolerância religiosa e cultural, que pode incluir violência sexual e de outras formas, as jovens lésbicas, os jovens gays, bissexuais, trans e de gênero diverso em todo o mundo enfrentam exclusão socioeconômica”, ressaltaram Victor Madrigal-Borloz e Leilani Farha.

Os dois especialistas explicaram que essa exclusão pode ser vivida pela juventude LGBTI nos lares e nas comunidades onde moram. “A reprovação familiar e os castigos podem forçá-los a sair de casa — o que os torna mais vulneráveis a ainda mais violência e discriminação, um fator que se agrava com a idade e com a dependência econômica e a confiança em redes familiares e comunitárias.”

Segundo os relatores, “isso explica por que os jovens LGBT estão sobrerrepresentados em populações que sofrem com situação de rua e por que, uma vez sem moradia, eles sofrem discriminações adicionais”.

Os especialistas acrescentaram que a falta de moradia pode ser a consequência de outros episódios de discriminação, como o preconceito em ambientes de ensino.

“Na escola, muitos jovens LGBT sofrem bullying, o que resulta em taxas de abandono que são mais altas do que a média e tem consequências severas, de longo prazo, para o seu projeto de vida. Os jovens LGBT têm menos probabilidade de ter níveis educacionais e habilidades para encontrar emprego e alcançar segurança econômica, o que, por outro lado, afeta a sua oportunidade de encontrar moradia adequada”, ressaltaram Lelani e Madrigal-Borloz.

De acordo com os relatores, um estudo recente revela que quase dois terços dos jovens LGBT em situação de rua já tiveram problemas de saúde mental. Estudos sugerem que essa população tem mais chances de relatar casos de depressão, transtorno bipolar e tentativas de suicídio.

“Eles (os jovens LGBT) também têm menos probabilidade de ter acesso a cuidados de saúde e estão extremamente vulneráveis ao uso abusivo de álcool e drogas”, afirmaram os especialistas.

A dupla lembrou que, de acordo com o direito internacional de direitos humanos, os países têm a obrigação imediata de assegurar o direito a habitação e combater, de forma efetiva, a falta de moradia.

Conforme previsto pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), governos também precisam identificar e enfrentar as causas estruturais da situação de rua, a fim de eliminar essa violação de direitos até 2030.

“Dentro desse contexto, as medidas adotadas pelos governos nacionais e locais precisam impedir que os jovens LGBT se tornem moradores de rua, garantir que as políticas e programas de habitação sejam inclusivos para as pessoas LGBT e abordar as necessidades dos jovens LGBT”, completaram os relatores.

Victor Madrigal-Borloz é especialista independente da ONU sobre proteção contra a violência e a discriminação baseada em orientação sexual e identidade de gênero.

Leilani Farha é relatora especial da ONU sobre o direito a moradia.

Fonte: ONU Brasil

Conhecida por descrever as dificuldades enfrentadas pela comunidade negra nos EUA, Morrison ganhou o Nobel de Literatura em 1993 e, após uma carreira de décadas, deixa um legado com obras que se destacam pela sua humanidade, como Amada, Canção de Salomão e Deus Ajude essa Criança.

A escritora americana Toni Morrison, primeira negra a ganhar o Nobel de Literatura, morreu na segunda-feira (5), aos 88 anos, em Nova York. A morte foi comunicada nesta terça-feira pela editora que a representava e por sua família.

“Sua narrativa e sua hipnótica prosa deixaram uma marca indelével na nossa cultura. Seus romances dominam e demandam a nossa atenção”, escreveu Sonny Mehta, diretor da editora Alfred A. Knopf, no Twitter.

Em comunicado, a família de Toni Morrison informou que a escritora “morreu após uma breve doença”. “Apesar de sua morte representar uma tremenda perda, estamos gratos por ela ter tido uma vida longa e bem vivida”, afirma a nota, segundo a agência de notícias AFP.

Conhecida por descrever as dificuldades enfrentadas pela comunidade negra nos EUA, Morrison ganhou o Nobel de Literatura em 1993 e, após uma carreira de décadas, deixa um legado com obras que se destacam pela sua humanidade, como Amada, Canção de Salomão e Deus Ajude essa Criança.

O romance mais famoso de Toni Morrison, Amada, foi inspirado em uma história verdadeira e angustiante que a escritora primeiramente achou “inacessível à arte”. O livro lhe rendeu o Pulitzer de ficção em 1988.

Seus outros trabalhos incluíram Playing in the Dark, uma coleção de ensaios; Dreaming Emmett, uma peça sobre o adolescente assassinado Emmett Till; e vários livros infantis de coautoria com Slade Morrison, seu filho que morreu de câncer em 2010.

Toni Morrison também escreveu sobre os horrores da escravidão e do racismo, questionando a noção simplista do bem e do mal.

Nascida em 1931 em Lorain, no estado de Ohio, Morrison formou-se em letras e lecionou em várias universidades, tendo trabalhado também como editora na Random House, num posto que lhe permitiu divulgar outros nomes da literatura afro-americana.

Sua estreia como autora ocorreu pouco antes de completar 40 anos, em 1970, com o romance O Olho mais Azul, baseado numa história de infância sobre uma criança negra que desejava ter olhos azuis e que foi assediada pelo pai.

Em entrevista ao jornal The New York Times, em 1979, Toni Morrison recordou que se sentia sozinha com os dois filhos, em Nova York, quando começou a escrever. “Escrever era uma coisa que eu fazia à noite, depois de as crianças irem dormir”, contou.

Após O Olho mais Azul, seguiram-se Sula (1973), Canção de Salomão (1977), Tar Baby(1981) e Amada (1987), todos eles dando voz a personagens negras e evocando questões relacionadas ao racismo, segregação e minorias.

Em 1993, quando se tornou a primeira escritora negra a ganhar o Nobel de Literatura, a Academia Sueca destacou a presença da tradição afro-americana nas obras da autora, por influência dos livros que lia e das histórias que o pai lhe contava, e da transposição desse patrimônio cultural para romances sobre redenção e integridade.

No Twitter nesta terça-feira, o Nobel escreveu: “Toni Morrison, ganhadora de um prêmio Nobel, morreu aos 88 anos. Ela foi uma das forças literárias mais poderosas e influentes do nosso tempo.”

A escritora foi casada com o arquiteto jamaicano Harold Morrison, com quem teve dois filhos. O casal se divorciou em 1964. A escritora deixa o filho Harold Ford Morrison e três netos.

Fonte: Agência Brasil

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