O dia 28 de abril é uma data de profunda reflexão e conscientização: o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho. Instituída internacionalmente e reconhecida no Brasil pela Lei nº 11.121/2005, esta data remete à trágica explosão em uma mina na Virgínia, Estados Unidos, em 1969, que ceifou a vida de 78 trabalhadores. Mais do que uma homenagem, é um chamado à ação para aprimorar as condições de trabalho e garantir a saúde e segurança dos profissionais em todas as categorias.
Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado um alarmante crescimento nos afastamentos do trabalho decorrentes de transtornos mentais. Conforme dados do Ministério da Previdência Social de 2024, revelam que o país registrou mais de 470 mil afastamentos por essa causa, o maior número desde 2014, com um crescimento contínuo de casos de ansiedade e depressão relacionados ao ambiente laboral. Este cenário sublinha a urgência de se discutir não apenas os acidentes físicos, mas também as doenças invisíveis que afetam a mente e o corpo dos trabalhadores.
Segundo as informações do DIEESE, entre as categorias mais vulneráveis ao adoecimento psicofisiológico, destaca-se a de telemarketing. Os trabalhadores/as desse setor estão constantemente expostos a um conjunto de fatores estressores que contribuem para o desenvolvimento de condições como burnout, depressão, ansiedade e outros distúrbios psicofisiológicos. A pressão por metas inatingíveis, o monitoramento constante, a repetitividade das tarefas, o ambiente ruidoso e as jornadas de trabalho intensas, muitas vezes em escala 6x1, são elementos que minam a saúde mental e física desses trabalhadores.
Essas condições podem levar a uma série de problemas, incluindo LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) e problemas vocais, frequentemente agravados pelo estresse crônico. O reconhecimento desses riscos é fundamental para a implementação de políticas de prevenção e suporte adequadas.
Diante dessa realidade, o Sintratel-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing de São Paulo) tem se destacado por suas iniciativas de acolhimento e suporte aos trabalhadores adoecidos por transtornos mentais. Em uma parceria estratégica com a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), o sindicato oferece Encontros de Saúde com psicoterapia em grupo.
Essa ação é coordenada pela Dra. Renata Paparelli, renomada professora e coordenadora do curso de Psicologia da PUC-SP. Os grupos de psicoterapia são conduzidos a partir da perspectiva da Psicologia Social e do Trabalho, com o apoio da Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic da PUC-SP. Os encontros ocorrem uma vez por semana, às quartas-feiras, e são voltados para trabalhadores/as de telemarketing/teleatendimento, tanto ativos quanto afastados de suas atividades.
A parceria, que conta com a colaboração da Secretaria de Saúde e Bem-Estar do Trabalho do Sintratel-SP, visa proporcionar um espaço seguro de escuta e suporte emocional, fundamental para a recuperação e o bem-estar desses. É um exemplo concreto de como a união entre entidades sindicais e instituições acadêmicas pode gerar soluções eficazes para os desafios da saúde mental no ambiente de trabalho.
O 28 de abril serve como um lembrete contundente de que a luta por ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis é contínua, e que vai além da atualização da NR-1 sobre a obrigatoriedade do reconhecimento dos riscos dos adoecimentos da saúde mental entre outras NRs importantes como o Anexo II da NR-17 que trata da Ergonomia e a Organização no Ambiente de trabalho. A crescente preocupação com o adoecimento psicofisiológico, especialmente em setores como o telemarketing, exige uma abordagem multifacetada que inclua prevenção, conscientização e, acima de tudo, acolhimento. Iniciativas como a do Sintratel-SP e PUC-SP são faróis de esperança, demonstrando que é possível construir um futuro em que a saúde mental dos trabalhadores/as seja prioridade, e não somente um termo técnico no papel.
Fontes: DIEESE, Ministério da Previdência Social
