Os recentes ataques coordenados entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã revelam um capítulo ainda mais sombrio da política internacional contemporânea. O que está em jogo vai muito além de estratégias geopolíticas ou confrontos entre Estados: está em causa o respeito pela vida humana, a proteção de civis e o compromisso — cada vez mais frágil — com as normas que regem conflitos armados no mundo.
Além disso, tanto os EUA quanto Israel desrespeitam frontalmente a Carta da ONU de 1945, que consagra o direito fundamental de autodeterminação e soberania dos povos. Ao agir à revelia desses princípios, enfraquecem o próprio sistema internacional criado após a Segunda Guerra Mundial para evitar novas tragédias globais.
Não se trata aqui de defender regimes ou governos — nenhum de nós precisa concordar com as políticas do atual governo iraniano ou com a ideologia dos aiatolás. Mas a reação civilizatória de qualquer pessoa com senso de humanidade é a indignação diante de ataques cuja primeira e mais cruel vítima foi um colégio de crianças no sul do Irã. Relatórios e imagens divulgados por múltiplas fontes indicam que um ataque a uma escola primária feminina em Minab resultou na morte de dezenas de crianças, enquanto outras sofreram ferimentos graves.
Essa realidade brutal — de crianças mortas em meio a uma ofensiva que deveria focar apenas em objetivos militares — expõe a falência de um princípio fundamental do direito internacional humanitário: a distinção entre combatentes e civis. Quando escolas se tornam alvo ou são atingidas em bombardeios, a própria noção de civilização está em xeque.
Há quem tente justificar esses ataques com base em interesses estratégicos — impedir que certas nações adquiram armas nucleares, destruir capacidades militares, proteger aliados. Mas tais argumentos não podem servir para legitimar violações que atingem diretamente vidas inocentes — vidas que nada têm a ver com ambições geopolíticas ou rivalidades de poder.
Perguntar se lideranças como Donald Trump e Benjamin Netanyahu responderão por eventuais crimes de guerra não é retórica vazia. As atrocidades que vimos nas últimas décadas — desde invasões motivadas por justificativas questionáveis, como no Iraque, até os ataques atuais — revelam um padrão preocupante: ações unilaterais, sem consulta internacional genuína e sem respeito pleno às normas multilaterais. Isso representa um enfraquecimento das instituições que deveriam limitar o arbítrio e proteger vidas.
Alguns podem pensar: “E se amanhã uma grande potência decidir que quer as riquezas naturais do Brasil ou de qualquer outro país soberano e não recebe permissão?” Parece absurdo, mas a história mostra que a lógica do poder não reconhece limites quando não encontra resistência jurídica e política internacional. A bomba que cai lá pode cair aqui, se aceitarmos a normalização de ataques que violam direitos humanos básicos e a soberania das nações.
Não podemos esquecer o passado: quando os EUA invadiram o Iraque sob o pretexto de armas de destruição em massa, o resultado foi devastador — milhares de civis mortos e a desestabilização de toda uma região. A violência em nome da “segurança” frequentemente gera consequências ainda mais desastrosas.
Como sindicalistas, trabalhadores e cidadãos do mundo, não podemos nos calar diante de violações aos princípios mais elementares da humanidade e do direito internacional. A defesa da autodeterminação dos povos, da soberania nacional e da vida humana deve ser inegociável. Nenhum objetivo geopolítico justifica o massacre de civis; nenhuma estratégia militar pode se sobrepor ao direito à vida e à dignidade.
É essa reflexão que compartilho neste momento: um chamado à razão, ao respeito à Carta da ONU e à defesa intransigente da paz e da vida em qualquer parte do planeta.
